Após um quarto de século de idas, vindas e birras protecionistas de ambos os lados do Atlântico, a fumaça branca finalmente subiu no Rio de Janeiro.
Nesta sexta-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deram o “sim” simbólico ao acordo histórico entre o Mercosul e a União Europeia. No Itamaraty carioca, sob o sol de janeiro, Lula não escondeu o alívio: foram “25 anos de sofrimento” para parir um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22 trilhões.
O petista, contudo, fez questão de marcar território, avisando que a abertura comercial só faz sentido se trouxer reindustrialização e redução de desigualdades, e não apenas o eterno papel de exportador de soja e minério. Amanhã, em Assunção, o papel será assinado, curiosamente sem a presença física de Lula, que enviará o chanceler Mauro Vieira para o carimbo final.
Ursula von der Leyen, por sua vez, não veio ao Rio apenas para trocar gentilezas diplomáticas. No discurso, a líder europeia deixou claro o interesse estratégico do bloco: o acesso facilitado ao lítio, níquel e terras raras da América do Sul. Em um mundo onde a China domina as baterias e os EUA de Trump voltam a erguer muros tarifários, a Europa corre para garantir sua “independência estratégica” através das veias abertas do Mercosul.
O acordo prevê que a UE zerará tarifas sobre 95% dos bens sul-americanos em 12 anos, enquanto o Mercosul fará o mesmo para 91% dos produtos europeus em 15 anos. É um jogo de paciência e assimetrias, onde o Brasil aposta na exportação de aviões e manufaturados de valor agregado, enquanto tenta não ser engolido pela eficiência industrial alemã.
A reindustrialização brasileira sobreviverá à invasão de produtos europeus ou o acordo é o certificado de óbito da nossa manufatura?
Será que as salvaguardas ambientais — agora obrigatórias e vinculantes — serão usadas como armas protecionistas pela França no futuro, ou o Brasil finalmente aprenderá a jogar na Champions League do comércio global? L
ula aposta no multilateralismo como vacina contra o isolacionismo, mas o desafio é interno: como garantir que o crescimento do PIB, mencionado no discurso, chegue ao bolso de quem ganha o salário mínimo de R$ 1.621?
O otimismo de Geraldo Alckmin, que vê “emprego na veia”, confronta o receio de setores da indústria de transformação que temem o fim da proteção estatal. O fato é que, a partir de amanhã, o Mercosul deixa de ser um condomínio fechado para virar o salão nobre do comércio ocidental.
O Balanço do Pacto: O Que Está em Jogo na Mesa
| Setor Estratégico | Promessa do Acordo | A Letra Miúda (Risco) | O Olhar do Diário |
| Agronegócio | Acesso a 27 países ricos via cotas. | Exigências ambientais rigorosas (UE). | O campo sorri, mas o fiscal europeu vigia. |
| Indústria | Redução de custos em máquinas e peças. | Concorrência direta com a tecnologia alemã. | Reindustrialização ou “comércio de balcão”? |
| Transição Verde | Investimentos em Lítio e Terras Raras. | Exportação de matéria-prima bruta. | A Europa quer nossas baterias, não nossos carros. |
| Governança | Defesa da Democracia e Direitos Humanos. | Clausulas que permitem suspensão do pacto. | A moralidade como trava comercial estratégica. |
Lula e Ursula venderam esperança no Rio, mas o sucesso desse casamento depende da capacidade do Brasil de deixar de ser apenas um fornecedor de commodities. O acordo é uma aposta alta em um momento de fragmentação global.

Se por um lado ele blinda o Mercosul contra o unilateralismo de Trump, por outro ele exige uma produtividade que o Brasil ainda patina para alcançar. A assinatura em Assunção é o fim de um capítulo de 25 anos, mas o início de uma prova de fogo para a soberania econômica sul-americana.





