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Geopolítica & Guerra

Parcerias Brasil-China: navegando no tabuleiro geoeconômico internacional

Alexandre Ramos Coelho, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

O mundo vive uma transformação profunda, em que a lógica do mercado cede lugar a uma ordem geoeconômica, onde Estados utilizam instrumentos econômicos com fins estratégicos, políticos e de segurança nacional. Exemplo disso é o controle da exportação de bens de uso duplo ou o aumento de tarifas como ferramenta de pressão.

Nesse cenário, a segurança econômica ganha centralidade, e a interdependência econômica, antes vista como benefício mútuo, tornou-se instrumento de poder. Os Estados utilizam conexões comerciais, financeiras e produtivas para pressionar ou obter vantagens políticas e econômicas. As crescentes tensões entre Estados Unidos e China ilustram essa nova realidade, marcada pela fragmentação das cadeias globais de valor, a regionalização do comércio e a competição tecnológica.

No centro desse processo está o Brasil, que busca preservar sua autonomia diplomática enquanto explora oportunidades em um ambiente global marcado por tensões entre Estados Unidos e China. A visita de Xi Jinping ao Brasil, em novembro de 2024, resultou na assinatura de 37 acordos bilaterais, abordando áreas como agricultura, finanças, infraestrutura e tecnologia. Tais iniciativas destacam a posição do Brasil no tabuleiro global, equilibrando cooperação e autonomia.

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Abertura de mercados: o novo “grão de ouro” brasileiro?

Entre os acordos assinados, a abertura do mercado chinês para produtos como uvas frescas, farinha de peixe, gergelim e sorgo merece destaque. Este processo, que exige a harmonização de padrões fitossanitários, cria oportunidades significativas para o agronegócio brasileiro. O sorgo, em particular, apresenta grande potencial. Resistente a climas áridos e utilizado na produção de biocombustíveis e ração animal, o cereal é importante para regiões semiáridas do Brasil.

Apesar de ser o terceiro maior produtor mundial, o Brasil ainda ocupa uma posição marginal no comércio global, com apenas 0,29% das exportações. A China, maior consumidora mundial, importa cerca de 7 milhões de toneladas anuais, majoritariamente dos Estados Unidos.

Contudo, o agravamento da rivalidade sino-americana, especialmente sob a reeleição de Donald Trump, pode levar Pequim a buscar fornecedores alternativos. Neste contexto, o sorgo brasileiro surge como opção tática, representando uma oportunidade para consolidar a presença do Brasil no mercado asiático e ampliar sua competitividade agrícola.

BNDES e CDB: diversificação monetária

Outro ponto-chave foi o acordo entre o BNDES e o Banco de Desenvolvimento da China (CDB), resultando em um empréstimo de RMB 5 bilhões (cerca de R$ 4 bilhões). O objetivo principal é financiar projetos estratégicos e ampliar o uso do renminbi (RMB) como moeda de liquidação comercial entre empresas brasileiras e chinesas. Esse movimento é amplamente interpretado como uma estratégia para reduzir a dependência do dólar americano no comércio internacional, o que considero válido. No entanto, de um ângulo mais pragmático, a iniciativa também representa um esforço para diversificar as opções financeiras e reduzir os custos cambiais nas transações internacionais, sem desafiar a predominância do dólar.

A divisa americana permanece como a principal moeda do comércio global, representando 47,01% de todas as transações internacionais em setembro de 2024, enquanto o renminbi (RMB) responde por apenas 3,61%, conforme dados da SWIFT, uma rede global que acompanha pagamentos internacionais.

Portanto, considero que o objetivo do acordo não seja substituir integralmente o dólar em todas as transações comerciais, mas, sim, ampliar as opções de pagamento. A meta é reduzir os custos cambiais nas operações com a China e fortalecer a flexibilidade econômica do Brasil em uma realidade em constante transformação.

Esse tipo de parceria alinha-se, inclusive, a práticas globais adotadas por países como Reino Unido, União Europeia e Japão, que utilizam mecanismos semelhantes para facilitar o comércio em RMB. Para o Brasil, essa estratégia não apenas reduz custos no comércio bilateral, mas também fortalece sua integração ao mercado asiático, ampliando sua resiliência em um sistema econômico fragmentado.

Nova Rota da Seda: pragmatismo e autonomia

Apesar de não aderir formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), o Brasil optou por negociar protocolos de sinergia. Essa decisão reflete o pragmatismo de sua política externa, que busca maximizar benefícios sem comprometer sua autonomia. Uma das possibilidades levantadas por especialistas é a modernização de rotas de transporte para escoar commodities brasileiras, com o Porto de Chancay, no Peru, como ponto estratégico. Isso reduziria custos logísticos e fortaleceria a competitividade brasileira no mercado asiático. Contudo, tais projetos exigem investimentos significativos em infraestrutura, conectando rotas internas ao litoral peruano.

Essa postura também responde à rivalidade sino-americana. Ao evitar um alinhamento explícito com a BRI, o Brasil mantém sua flexibilidade diplomática e preserva sua capacidade de diversificar relações comerciais, equilibrando seus interesses dentro das relações internacionais.

Telebras e SpaceSail: conectividade e soberania tecnológica

No campo tecnológico, o acordo entre a Telebras e a SpaceSail, concorrente chinesa da Starlink, é uma oportunidade para enfrentar desafios históricos de conectividade no Brasil. A SpaceSail planeja investir US$ 1 bilhão na instalação de teleportos e expansão da conectividade via satélites de órbita baixa, oferecendo alternativas à infraestrutura dominada pela Starlink. No entanto, é fundamental avaliar se o acordo inclui mecanismos de transferência de tecnologia, elemento crítico para ampliar a soberania tecnológica e reduzir dependências externas.

O sucesso dessa parceria dependerá da capacidade da SpaceSail de competir em qualidade e preço. Monitorar cuidadosamente os desdobramentos será vital para garantir que a iniciativa esteja alinhada aos interesses nacionais e traga benefícios duradouros.

O Brasil no grande jogo geoeconômico

Os acordos firmados entre Brasil e China refletem as complexidades e oportunidades de um mundo em transição para uma ordem geoeconômica. A abertura de mercados para produtos como o sorgo reforça o papel do Brasil no comércio agrícola global. A parceria financeira com o CDB amplia a flexibilidade econômica do país, enquanto a decisão de não aderir à BRI demonstra cautela estratégica. Por fim, o acordo com a SpaceSail representa um avanço em conectividade digital e soberania tecnológica.

Com essa configuração, o Brasil emerge como um ator-chave em um tabuleiro global caracterizado por tensões e rivalidades. Estratégias flexíveis serão cruciais para aproveitar os benefícios das parcerias, preservar a soberania nacional e explorar as oportunidades de um mundo competitivo e fragmentado.

Alexandre Ramos Coelho, Professor na Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

JR Vital
JR Vitalhttps://diariocarioca.com/
JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.
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