O medo do déspota

Com BRICSFOBIA, Donald Trump sobretaxa Índia e ameaça Brasil por petróleo russo

Presidente dos EUA anuncia tarifa extra de 25% e insinua sanções contra países que mantêm comércio com a Rússia
Os presidentes do Brasil, Lula, e da Rússia, Vladimir Putin. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Os presidentes do Brasil, Lula, e da Rússia, Vladimir Putin. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Brasília, 6 de agosto de 2025 — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre importações da Índia, elevando a taxação total a 50%. A medida, segundo o decreto presidencial, é uma retaliação direta às compras indianas de petróleo da Rússia, apesar das pressões de Washington para que Moscou encerre a guerra contra a Ucrânia.

O texto oficial menciona a possibilidade de aplicar medidas semelhantes contra outros países, entre eles o Brasil, que aumentou expressivamente suas importações de diesel russo desde o início do conflito em 2022. O governo dos EUA considera que qualquer país que compre petróleo russo, direta ou indiretamente, poderá ser alvo de tarifas ou sanções comerciais.

Brasil sob risco de retaliação econômica

No mesmo decreto, Trump delega ao secretário de Comércio, Howard Lutnick, a missão de investigar e recomendar novas sanções para países que mantenham comércio energético com a Rússia. O Brasil aparece como exemplo: em 2024, o país importou US$ 5,4 bilhões em diesel russo — o maior valor da história, com alta de 19% em relação ao ano anterior.

De janeiro a junho deste ano, mais de 60% do diesel importado pelo Brasil veio da Rússia, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A partir de julho, os Estados Unidos reassumiram a liderança como principais fornecedores, o que pode ser interpretado como um movimento estratégico para evitar sanções.

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O impacto possível sobre o Brasil

Além do petróleo, a preocupação se estende ao agronegócio. A Rússia é responsável por cerca de 30% das importações brasileiras de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola. O temor no setor é de que uma retaliação americana envolva restrições ou sobretaxas também sobre esse tipo de produto.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, representantes do setor agroindustrial e da bancada ruralista já alertaram o Itamaraty sobre o risco de o Brasil sofrer sanções a partir de sexta-feira (8). A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também manifestou preocupação com o impacto das medidas.

Durante missão recente a Washington, senadores brasileiros ouviram de empresários e congressistas norte-americanos que o Congresso dos EUA discute uma nova lei anti-Rússia. O texto prevê punições a países que mantêm relações comerciais com Moscou, incluindo sobretaxas de até 500% sobre exportações para os Estados Unidos.


Guerra comercial e disputa global por energia

O decreto assinado por Donald Trump define como “petróleo russo” qualquer derivado extraído, refinado ou exportado pela Rússia, mesmo que reprocessado por terceiros países. O conceito de importação indireta amplia o alcance das possíveis sanções e coloca o Brasil e outras nações importadoras em situação de alerta.

Desde a reeleição de Trump, os Estados Unidos adotaram uma política externa mais agressiva, retomando práticas unilaterais e punitivas, inclusive contra aliados comerciais. O endurecimento do discurso visa conter o financiamento indireto da guerra por meio da compra de commodities energéticas russas.

Embora o governo Lula ainda não tenha se manifestado oficialmente sobre a nova ameaça, fontes diplomáticas ouvidas reservadamente avaliam que qualquer ação comercial contra o Brasil seria um ataque frontal à soberania energética e ao direito de conduzir política externa independente.


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