A declaração não deixou margem para dúvida: Donald Trump não falou em transição, cooperação ou reconstrução. Falou em governo, domínio e petróleo.
Há momentos na história em que o cinismo abandona o eufemismo e passa a falar em voz alta. Foi o que ocorreu neste sábado, quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, declarou sem rodeios que seu país irá governar a Venezuela e explorar diretamente suas reservas de petróleo após um ataque militar e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Não houve esforço retórico para disfarçar o objetivo. Diante da imprensa, Trump afirmou que grandes companhias petrolíferas norte-americanas passarão a operar no território venezuelano, sob proteção militar dos EUA, enquanto Washington decide quando — e se — haverá uma “transição adequada”.
“O colonialismo moderno não precisa mais de mapas: basta um microfone e um poço de petróleo.”
A confissão que encerra o debate
Trump descreveu a ofensiva como uma “operação militar extraordinária”, executada no coração de Caracas, com o objetivo declarado de capturar Maduro e levá-lo aos Estados Unidos. Segundo ele, o presidente venezuelano e sua esposa, Cilia Flores, já estão em solo norte-americano, onde enfrentarão acusações de narcoterrorismo — rejeitadas pelo governo venezuelano.
O ponto central, porém, não foi jurídico nem humanitário. Foi econômico. Trump afirmou que a infraestrutura petrolífera da Venezuela será “recuperada” por empresas dos EUA, que investirão bilhões para, em suas palavras, “começar a ganhar dinheiro pelo país”. A soberania venezuelana, nesse discurso, surge como detalhe irrelevante.
Do século XIX ao XXI: a Doutrina Monroe sem verniz
A cena remete menos às guerras modernas e mais ao século XIX. Da Doutrina Monroe ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt, a América Latina conhece bem esse roteiro: intervenção militar, tutela política e apropriação de recursos naturais sob o pretexto de ordem e civilização. A diferença é que, desta vez, o presidente dos Estados Unidos não se deu ao trabalho de negar o caráter colonial da ação.
Ao afirmar que os EUA permanecerão na Venezuela “até quando for necessário” e que estão prontos para uma segunda onda de ataques, Trump normaliza a ocupação como política de Estado. O discurso do combate às drogas surge como justificativa funcional — uma atualização do velho argumento civilizatório que sustentou impérios.
Reações e alinhamentos
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou duramente a agressão norte-americana, classificando-a como violação frontal do direito internacional. Em contraste, setores da direita brasileira defenderam a intervenção, reforçando uma tradição histórica de alinhamento submisso às potências hegemônicas, mesmo quando isso implica o colapso da legalidade internacional.
Na Europa e em organismos multilaterais, crescem as críticas à ação dos EUA, vista como um divisor de águas perigoso. Ao transformar uma intervenção militar em projeto aberto de administração colonial, Washington reintroduz uma lógica que o mundo dizia ter enterrado após a Segunda Guerra Mundial.
Quando o império para de fingir
Trump encerrou seu pronunciamento prometendo prosperidade, riqueza e segurança ao povo venezuelano — uma promessa tão antiga quanto os próprios impérios. A história, no entanto, é menos generosa com esse tipo de discurso. Da África ao Oriente Médio, os territórios “libertados” à força raramente colheram o paraíso prometido.
O que se inaugura não é uma nova era de estabilidade, mas a confissão explícita de que, para a maior potência do planeta, soberania virou obstáculo e petróleo, justificativa suficiente.
Atualizado: 03 de janeiro de 2026, 15:05 | Conteúdo revisado e editado por JR Vital (MTB 0037673/RJ)
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