Não é lapsus retórico, nem bravata isolada. Quando Donald Trump fala em “precisar” da Groenlândia e, ao mesmo tempo, legitima a captura do presidente venezuelano e a tutela externa sobre o país, ele faz algo mais grave: assume publicamente o roubo como método de governo. Roubo de território, roubo de soberania, roubo do direito de autodeterminação.
Poucas horas depois da ofensiva norte-americana que derrubou o governo da Venezuela, Trump retomou o discurso de anexar a Groenlândia, hoje parte do Reino da Dinamarca. A lógica é a mesma nos dois casos: interesses estratégicos dos Estados Unidos acima de qualquer fronteira, tratado ou vontade popular. O nome disso, na história, nunca foi “defesa”. Sempre foi espoliação.
Do século XIX do “Destino Manifesto” às intervenções do século XX na América Latina, a literatura política é clara. Como descreveu Eduardo Galeano, o império raramente se apresenta como ladrão; prefere vestir o figurino de tutor civilizatório. O problema é que, em 2026, Trump já nem se dá ao trabalho de disfarçar.
“Quando um país diz ‘precisamos’ do território de outro, o verbo correto não é precisar — é roubar.”
Groenlândia: a cobiça sem verniz
Trump voltou a afirmar que a ilha ártica seria indispensável à defesa dos Estados Unidos, citando a presença de Rússia e China na região. O argumento ignora um fato básico do direito internacional: a Groenlândia não está à venda. A Dinamarca reagiu exigindo respeito à sua integridade territorial, enquanto o primeiro-ministro groenlandês reiterou que não existe qualquer possibilidade de anexação. Ainda assim, aliados do governo norte-americano publicaram imagens da ilha coberta pela bandeira dos EUA, como se o símbolo bastasse para legitimar a apropriação.
Venezuela: tutela forçada é roubo político
No mesmo movimento, Trump declarou que Washington poderia “administrar” a Venezuela até uma suposta transição democrática. A fórmula é antiga e conhecida na América Latina: derruba-se um governo, deslegitima-se a soberania local e apresenta-se a ocupação como serviço. Não é transição; é confisco político de um país inteiro.
O que está em jogo
A convergência entre os dois discursos deixa pouco espaço para ambiguidades. Seja na América do Sul ou no Ártico, a mensagem é a mesma: fronteiras são obstáculos negociáveis quando colidem com interesses estratégicos dos Estados Unidos. Trata-se de uma ruptura explícita com o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial.

