O discurso foi calculado, o cenário cuidadosamente montado. Em Washington, o secretário de Estado Marco Rubio apresentou o que chamou de “plano para evitar o caos” na Venezuela.
A frase, repetida como mantra, revela tanto a ambição declarada quanto a sombra histórica que acompanha qualquer intervenção americana ao sul do Rio Grande.
Após a captura de Nicolás Maduro no último fim de semana, os Estados Unidos assumem o papel de fiador da ordem venezuelana, propondo uma transição em três atos. A promessa: estabilidade, reconstrução econômica e, por fim, uma nova arquitetura de poder.
Paralelo histórico-literário
Da Doutrina Monroe às intervenções da Guerra Fria, a América Latina já leu esse roteiro antes. Em termos literários, lembra “A Tempestade”, de Shakespeare: Próspero justifica o controle da ilha como necessidade civilizatória, enquanto decide sozinho quem pode falar, governar e existir.
“Quando o caos é definido por quem tem o poder, a ordem costuma vir algemada.”
Estabilidade: a ordem antes da política
O primeiro movimento do plano é a estabilização. Na prática, significa manter a chamada “quarentena” sobre o petróleo venezuelano e retomar o controle de ativos estratégicos. Washington deixa claro que os recursos energéticos poderão ser vendidos no mercado internacional — desde que sob sua supervisão. A economia, aqui, funciona como instrumento político.
Recuperação: mercado aberto, feridas abertas
Na segunda etapa, o vocabulário muda para “reconstrução” e “reconciliação”. Rubio fala em atrair empresas americanas e ocidentais, libertar presos políticos e conceder anistias. O subtexto é inequívoco: a recuperação econômica passa por uma reconfiguração profunda do modelo venezuelano, agora alinhado aos interesses do mercado global.
Transição: democracia como promessa futura
A etapa final é a mais abstrata — e a mais sensível. A transição política, segundo o plano, criaria condições para um novo equilíbrio de poder e eleições futuras. Não há cronograma, apenas intenção declarada. Enquanto isso, apreensões de petroleiros no Caribe e no Atlântico reforçam a pressão material sobre Caracas, que já negocia com Washington o destino do petróleo confiscado.
O custo internacional da tutela
O anúncio ocorre em meio a fortes críticas de Rússia e outros países, que denunciam violações do direito marítimo internacional. O conflito, portanto, extrapola a Venezuela e se insere na disputa maior por influência global, onde princípios jurídicos frequentemente cedem lugar à força.
No fim, o plano americano levanta uma pergunta antiga e incômoda: quem define o que é “caos” e quem lucra com a “ordem”? A resposta, como quase sempre na história latino-americana, ainda não virá das urnas.

