Bovino de Direita, tudo a ver

Quem é Gregory Bovino, o chefe da Patrulha de Fronteira afastado após flertar com símbolos autoritários

Ascensão meteórica, operações urbanas militarizadas e uma iconografia que evocou o pior do século XX colocam o agente no centro do debate sobre imigração e poder nos EUA.
Gregory Bovino, ex-comandante da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos. Foto: Divulgação
Gregory Bovino, ex-comandante da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos. Foto: Divulgação
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Em períodos de tensão social, a segurança costuma abandonar o campo da técnica para ocupar o da encenação.

Nos Estados Unidos, os conflitos recentes em torno das operações federais de imigração trouxeram à ribalta o nome, que remete ao Bolsonarismo, de Gregory Bovino, então chefe regional da Patrulha de Fronteira, afastado após se tornar símbolo de uma política baseada no confronto — e na estética.

Com carreira iniciada nos anos 1990, Bovino construiu sua trajetória dentro da ala mais dura do aparato migratório norte-americano. Seu avanço profissional acompanhou a consolidação de uma doutrina que enxerga a imigração menos como fenômeno social e mais como ameaça permanente à ordem interna. Sob o atual governo, passou a atuar não apenas como agente operacional, mas como figura política da segurança.

A fronteira avança sobre a cidade

A projeção nacional veio quando Bovino passou a comandar intervenções federais em centros urbanos, rompendo a tradição de atuação restrita à zona de fronteira. Cidades como Minneapolis tornaram-se palco de operações que desafiaram governadores e prefeitos, muitos deles abertamente contrários à presença ostensiva de agentes federais armados em áreas metropolitanas.

Organizações de direitos civis alertaram que as ações ampliaram a tensão social, contribuíram para confrontos e aprofundaram a sensação de ocupação militar. A retórica adotada por Bovino — agressiva, personalista e desafiadora — reforçou a leitura de que a política migratória havia sido convertida em instrumento de demonstração de força.

Quando a estética fala mais alto que o discurso

O ponto de inflexão, porém, não veio de uma ordem escrita, mas da imagem. Em operações oficiais, Bovino passou a aparecer vestindo um sobretudo verde-oliva de corte rígido, imediatamente comparado por analistas e veículos internacionais a uniformes associados a regimes autoritários do século XX, em especial ao imaginário nazista.

Não houve declaração explícita, gesto simbólico assumido ou saudação proibida. Ainda assim, a combinação entre vestimenta, postura corporal e cenário — tropas armadas em cidades civis — produziu um efeito político inequívoco. Em regimes autoritários, a estética nunca é neutra. Ela comunica antes mesmo da palavra.

A reação foi imediata. Protestos se multiplicaram, a imagem circulou globalmente e o debate ultrapassou a figura individual para alcançar o próprio modelo de segurança adotado.

Afastamento e dano consolidado

Diante da repercussão, Gregory Bovino foi afastado do comando em Minneapolis e realocado para outra função. O gesto administrativo não apagou o estrago simbólico: sua figura passou a representar uma política migratória baseada no choque, na militarização do espaço urbano e na flertação visual com referências autoritárias que a história recente deveria ter tornado inaceitáveis.

O episódio reforçou uma constatação incômoda para o establishment norte-americano: quando a segurança pública abandona o verniz institucional e assume a linguagem do espetáculo, ela deixa de proteger para passar a intimidar.

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