Abin Paralela foi acionada para fazer dossiê contra 152 bispos críticos a Bolsonaro

Relatório da PF revela uso da Abin para perseguir religiosos que denunciaram governo Bolsonaro
Ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR
Ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Brasília, 18 de junho de 2025 – O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), sob comando do general Augusto Heleno durante o governo Jair Bolsonaro, solicitou a elaboração de um dossiê detalhado contra 152 bispos católicos que criticaram publicamente a gestão bolsonarista em 2020. A revelação consta no relatório final da Polícia Federal sobre a operação da chamada “Abin Paralela”, que escancarou o uso da máquina estatal para perseguição política.

De acordo com a investigação, o levantamento ilegal de dados foi direcionado a Frank Marcio de Oliveira, então diretor-adjunto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), com o claro objetivo de monitorar e constranger lideranças religiosas que se posicionaram contra Bolsonaro.

O estopim da ação foi uma carta pública assinada por bispos em 2020, na qual denunciaram o colapso na saúde, na educação e na cultura, além de classificarem o país, na época, como “mergulhado em uma grave crise política e de governança”, causada diretamente pela condução do governo Bolsonaro.

Estado policial em ação

O relatório da PF também expõe trocas de mensagens internas que demonstram a atuação coordenada de integrantes da Abin alinhados aos interesses do núcleo bolsonarista. Um dos documentos anexados à investigação é uma comunicação enviada por Marcelo Bormevet, então integrante da agência, que repassava materiais considerados parte da operação de monitoramento ilegal.

As investigações revelam ainda que o uso da estrutura de inteligência do Estado não se restringiu aos bispos. O mesmo esquema teria sido utilizado para espionar adversários políticos, membros do Judiciário, jornalistas e lideranças sociais.

Igreja na mira do bolsonarismo

A carta dos bispos, que motivou o dossiê, foi um dos documentos mais contundentes da época contra o bolsonarismo. No texto, os religiosos acusaram o então presidente de fomentar crises institucionais, negligenciar a pandemia e promover políticas que aprofundaram desigualdades sociais e atacaram direitos fundamentais.

Ao invés de responder democraticamente às críticas, o governo acionou seu aparelho de inteligência para perseguir os signatários — uma prática que remonta a períodos autoritários da história brasileira.

Augusto Heleno réu

O general Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do GSI e responsável direto pelo pedido dos dossiês, já é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por participação na trama golpista investigada pela PF. As revelações sobre a espionagem contra os bispos se somam ao crescente rol de acusações que pesam contra os ex-integrantes do governo Bolsonaro.

Escalada autoritária documentada

Para analistas ouvidos pela investigação, o uso da Abin como polícia política durante o governo Bolsonaro é uma das marcas mais evidentes da tentativa de transformação do Estado brasileiro em um aparato de controle autoritário.

O Diário Carioca lembra que este não é um caso isolado: os relatórios da PF sobre a Abin Paralela indicam que a prática de vigilância ilegal foi uma política de governo, não um desvio pontual.


O Carioca Esclarece

A Abin Paralela é uma estrutura clandestina de espionagem, criada durante o governo Bolsonaro, que operava fora dos limites legais para monitorar opositores, inclusive autoridades, religiosos e jornalistas.


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