Congresso Omisso

STF decide que Congresso foi omisso ao não taxar grandes fortunas

Suprema Corte reconhece falha legislativa de mais de 30 anos na criação do Imposto sobre Grandes Fortunas, previsto na Constituição.
STF - © Valter Campanato/Agência Brasil
STF - © Valter Campanato/Agência Brasil
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por 8 votos a 1, que o Congresso Nacional foi omisso ao não regulamentar o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), previsto no artigo 153 da Constituição Federal. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (6) no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 55, proposta pelo PSOL. O acórdão será redigido pelo ministro Cristiano Zanin, que acompanhou o voto do relator Marco Aurélio Mello, já aposentado.


STF reconhece omissão legislativa sobre o Imposto de Grandes Fortunas

O julgamento encerra uma espera de três décadas desde a promulgação da Constituição de 1988, que autorizou a criação do Imposto sobre Grandes Fortunas, dependente de lei complementar nunca aprovada pelo Legislativo. Para o PSOL, a ausência dessa regulamentação inviabiliza um dos mecanismos de justiça fiscal e redistribuição de renda previstos na Carta Magna.

O STF concordou que o Congresso deixou de exercer seu dever constitucional. O ministro Cristiano Zanin, ao votar, destacou que a discussão sobre o IGF “envolve debates econômicos e sociais de alta relevância” e que o Brasil tem participado de conversas internacionais no G20 para aprimorar modelos tributários mais justos e progressivos.

Apesar disso, Zanin optou por não fixar prazo para que o Congresso atue, argumentando que já existem esforços institucionais em andamento para debater o tema. Acompanharam esse entendimento os ministros Nunes Marques, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia, consolidando a maioria.


Flávio Dino pede prazo e defende correção de injustiça tributária

O ministro Flávio Dino divergiu parcialmente. Para ele, o Congresso deve ter um prazo de até 24 meses para aprovar a lei que cria o IGF, sob pena de perpetuar um sistema tributário desigual. Dino enfatizou que a omissão é evidente e que a ausência do imposto fere o princípio da capacidade contributiva, segundo o qual quem possui mais deve contribuir mais para o financiamento do Estado.

“A omissão compromete a equidade e mantém o Brasil entre os países com menor tributação sobre heranças e grandes patrimônios”,
afirmou Flávio Dino, ao defender que a justiça fiscal é essencial para a democracia econômica.

O ministro observou ainda que o Brasil figura entre as nações com maiores desigualdades sociais e uma das menores alíquotas sobre riqueza acumulada. Sua posição representa uma visão progressista de que a taxação de grandes fortunas é uma ferramenta legítima de redistribuição e fortalecimento do pacto social.


Fux diverge e defende autonomia política do Congresso

A única divergência total veio do ministro Luiz Fux, que votou pela improcedência da ação. Segundo ele, a inexistência da lei não configura omissão inconstitucional, pois o tema pertence ao campo das escolhas políticas do Legislativo e do Executivo.

Fux argumentou que cabe ao Congresso decidir o momento e o formato de instituir o imposto, conforme o cenário econômico e a vontade política majoritária. Essa linha reflete a visão de que a separação dos poderes impede a interferência judicial sobre decisões legislativas de natureza fiscal.

Os ministros André Mendonça, Edson Fachin e Gilmar Mendes não participaram da votação. Mendonça foi impedido por ter herdado o processo do antigo relator, enquanto Fachin e Gilmar estavam ausentes com justificativa.


Decisão reforça debate sobre justiça tributária e desigualdade

Com a decisão, o STF reconhece oficialmente que o Congresso foi omisso, mas não impõe prazo para corrigir a falha. Ainda assim, o julgamento é considerado um marco histórico para o debate sobre reforma tributária progressiva e redução das desigualdades sociais.

O reconhecimento da omissão legislativa reacende discussões sobre a responsabilidade do Parlamento em implementar políticas fiscais mais equilibradas. O Imposto sobre Grandes Fortunas, defendido por economistas e movimentos sociais, é visto como instrumento essencial para financiar políticas públicas e reduzir a concentração de renda no país.

Ao mesmo tempo, a decisão demonstra o papel do STF como guardião da Constituição, exigindo que o Estado cumpra suas próprias normas, mas respeitando a autonomia do processo legislativo. O Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, continua sem aplicar um tributo que poderia fortalecer a solidariedade fiscal e promover justiça social.

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