Poucas horas depois das explosões em Caracas, uma ala ruidosa da direita brasileira correu para o lugar que conhece bem: o colo de Washington. O anúncio de Donald Trump sobre a captura — ou, no português claro, o sequestro — de Nicolás Maduro foi recebido com euforia canina, latidos ideológicos e o velho ritual de submissão travestida de bravata moral.
O aplauso automático dos vira-latas
Entre os primeiros a comemorar, Eduardo Bolsonaro tratou a operação militar como sinal de colapso da esquerda latino-americana, misturando Foro de São Paulo, profecias apocalípticas e o mantra importado do “Viva a liberdade”. O detalhe inconveniente — bombardeios, violação de soberania e retirada forçada de um chefe de Estado — foi varrido para baixo do tapete estrelado.
Sergio Moro seguiu a cartilha, decretando nas redes o “fim do tirano de Caracas”, como se tweets substituíssem tribunais e mísseis fossem sinônimos de justiça. A coreografia é conhecida: quando o agressor fala inglês, o entusiasmo cresce.
“Para o vira-lata geopolítico, soberania é luxo — desde que o dono esteja satisfeito.”
Pedidos por mais força, menos lei
Nikolas Ferreira elevou o tom ao defender que “todos os ditadores” tenham o mesmo destino, numa frase que dissolve fronteiras entre justiça, vingança e autoritarismo seletivo. O senador Cleitinho Azevedo foi além: cobrou que Lula apoiasse integralmente a ofensiva, como se a política externa brasileira devesse funcionar por procuração.
Mauricio Marcon anunciou o “fim do regime” como quem comemora resultado de campeonato, ignorando o básico: governos não acabam por decreto estrangeiro sem deixar rastros de caos.
A exceção que confirma o vexame
Em contraste constrangedor para os colegas de campo, Eduardo Leite lembrou o óbvio que virou heresia: regimes autoritários não se combatem com agressão militar à margem do direito internacional. Condenou Maduro, sim, mas também rejeitou a violência de uma potência contra um Estado soberano. Foi uma aula elementar em meio ao estádio.
Um eco antigo, um erro recorrente
A cena repete capítulos já lidos na história latino-americana — da Doutrina Monroe às intervenções do século XX. A novidade é a naturalização do sequestro como política pública e o entusiasmo de quem confunde alinhamento automático com coragem. Quando a direita celebra bombas e raptos, não está defendendo liberdade; está apenas abanando o rabo para o poder de plantão.
O episódio expõe uma divisão, mas também um diagnóstico: há quem defenda princípios, e há quem prefira aplausos. A conta, como sempre, não chega para quem comemora de longe.
