O bolsonarismo voltou a operar no velho terreno do alarme falso. Marcos do Val, senador conhecido por versões fantasiosas, divulgou um áudio que descreve uma conspiração internacional contra Nicolás Maduro — supostamente gravado em uma reunião secreta, supostamente infiltrada, supostamente decisiva. Nada é comprovado. Tudo é “suposto”. O que sobra é o ruído.
A gravação, em espanhol genérico e com cadência artificial, circula como “divisor de águas”. Do Val garante ter sido o autor do registro e promete um “terremoto político”. O expediente é conhecido: elevar o tom, antecipar o caos e insinuar conexões grandiosas para substituir evidências que não existem.
Da Guerra Fria ao teatro digital
Na literatura política do século XX, de Orwell a Koestler, a conspiração serve para justificar o medo e disciplinar a audiência. No século XXI, ela ganha filtros, cortes e vozes sintéticas. O roteiro é o mesmo: uma ameaça invisível, um herói solitário, instituições demonizadas. A tecnologia apenas acelera o alcance.
“Quando a prova falta, a retórica vira prova.”
A retórica do “golpe sem armas”
O áudio fala em “ferramenta silenciosa e perigosa”: as Supremas Cortes. É a transposição direta do discurso antidemocrático que tenta desacreditar o Judiciário quando decisões não agradam. Ao citar o Brasil, Do Val acena à sua base com o velho espantalho, insinuando que o sistema de Justiça é parte de um complô continental.
Histórico que pesa
Não se trata de um episódio isolado. Em 2023, o senador inventou participação em plano para gravar um ministro do STF e depois admitiu à Polícia Federal que a história era falsa. Também já afirmou, sem respaldo, ter treinado unidades da SWAT. O padrão se repete: anúncio explosivo, ausência de prova, recuo silencioso.
IA como biombo
O indício de uso de inteligência artificial não é detalhe técnico; é o coração do problema. A facilidade de fabricar “evidências sonoras” desafia o jornalismo e o direito. Quando figuras públicas amplificam esse material sem verificação, o dano é imediato: confusão informacional, descrédito institucional e polarização lucrativa para quem grita mais alto.
O áudio não muda a história. Reafirma um método. Em vez de fatos, espetáculo. Em vez de documentos, insinuações. O país já viu esse filme — e sabe como termina.

