O ex-presidente Jair Bolsonaro, mestre na arte de converter reveses jurídicos em boletins médicos, acaba de acionar novamente o Supremo Tribunal Federal (STF). Desta vez, a defesa alega um suposto agravamento do seu estado de saúde após uma “queda” na cela da Polícia Federal, em Brasília. Segundo a petição protocolada pelo advogado João Henrique Freitas, o incidente teria resultado em um traumatismo craniano leve, que, somado às sequelas das cirurgias decorrentes do episódio de 2018 e à sua idade de 71 anos, justificaria a concessão de uma prisão domiciliar humanitária.
O pedido é uma tentativa desesperada de retirar o ex-mandatário do isolamento da Superintendência da PF, sob o argumento de que o ambiente carcerário não oferece o suporte médico contínuo que sua “fragilidade” exigiria. A tática de usar a saúde como salvo-conduto não é novidade no repertório bolsonarista, mas agora ganha contornos de urgência diante da manutenção das decisões rigorosas do ministro Alexandre de Moraes. Para os advogados, a cela é um risco à vida; para os observadores da “Navalha Carioca”, é apenas o cenário de uma encenação que busca converter a pena em um retiro domiciliar confortável.
A petição foca na narrativa da “humanidade”, tentando sensibilizar a Corte para uma situação que a própria defesa classifica como precária. Contudo, a Polícia Federal mantém protocolos rígidos e o STF tem sido cético quanto a alegações que não sejam acompanhadas de perícias oficiais irrefutáveis. Enquanto os advogados pintam o quadro de um idoso debilitado, o país recorda as inúmeras vezes em que a saúde de Bolsonaro foi utilizada como cortina de fumaça para evitar depoimentos ou responsabilidades políticas.
O check-up da impunidade
A insistência na “prisão domiciliar humanitária” revela o pavor de Bolsonaro diante da rotina comum do sistema prisional — ainda que em condições especiais. A queda na cela, oportuna como um roteiro de novela, surge no momento em que as investigações avançam sobre seus aliados e familiares. No Diário Carioca, a análise é clara: o ex-presidente quer o silêncio da casa e o conforto da rede, longe do barulho do ar-condicionado que ele mesmo mandou desligar. É a tentativa de transformar o cumprimento da sentença em um home office da impunidade.
O Prontuário Jurídico: Pedidos de Liberdade
| Argumento da Defesa | Detalhamento Técnico | Objetivo Estratégico |
| Queda na Cela | Traumatismo craniano leve (alegado). | Criar fato novo para relaxamento de prisão. |
| Sequelas de 2018 | Complicações intestinais e cervicais. | Vincular a prisão ao atentado histórico. |
| Fator Idade | 71 anos incompletos. | Apelar para o estatuto do idoso e prisão humanitária. |
| Ambiente Inadequado | Suposta falta de suporte médico na PF. | Desqualificar a custódia do Estado. |
A queda que não convence
Para quem sempre defendeu que o Estado não deveria ter “mimos” com detentos, o pedido de Bolsonaro soa como uma ironia trágica. A queda alegada pela defesa parece mais um tropeço retórico do que um acidente físico. Em 2026, a justiça brasileira não pode ser pautada por atestados de conveniência. Se o “Mito” caiu, que o Estado lhe dê o curativo e a assistência que dá a qualquer outro preso sob sua guarda, nem mais, nem menos. A lei, ao contrário do ex-presidente, não deve sofrer de labirintite seletiva

