A resposta de Luiz Inácio Lula da Silva ao ataque político mais recente não veio em tom de réplica direta, mas de aula histórica. Nesta terça-feira (27), data que marca o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, o presidente publicou mensagem em que associa o genocídio promovido pela Alemanha Nazista ao autoritarismo, aos discursos de ódio e ao preconceito étnico-religioso — elementos que, sem citar nomes, dialogam diretamente com a retórica do bolsonarismo contemporâneo.
A declaração ocorreu poucas horas depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acusar Lula de antissemitismo em um evento internacional realizado em Israel. O contraste entre acusação e resposta é revelador: de um lado, o uso político do Holocausto como arma retórica; do outro, a defesa explícita da memória histórica como barreira contra a repetição da barbárie.
Memória contra a banalização
Na mensagem publicada na rede social X, Lula destacou a importância de recordar o passado para impedir que ele seja instrumentalizado ou esquecido:
“Hoje – Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto – é preciso recordar os horrores que a humanidade é capaz de cometer contra o próprio ser humano. E lembrar que o autoritarismo, os discursos de ódio e o preconceito étnico e religioso foram as peças com as quais essa grande tragédia do século XX foi construída.”
A escolha das palavras não é neutra. Ao apontar os mecanismos políticos e simbólicos que permitiram o genocídio, o presidente desloca o debate da acusação moral simplista para a análise estrutural — um terreno pouco confortável para movimentos que flertam com soluções autoritárias e linguagem de exclusão.
Uma trajetória que desmente a acusação
Lula também recordou que, durante seu primeiro mandato, em 2004, assinou a petição encaminhada à Organização das Nações Unidas que resultou na criação oficial da data internacional de memória do Holocausto. O gesto não é apenas simbólico: ele integra a tradição diplomática brasileira de defesa dos direitos humanos e da preservação da memória histórica.
“Um dia de defesa dos Direitos Humanos, da convivência pacífica e das instituições democráticas, elementos fundamentais do mundo mais justo que queremos deixar para as próximas gerações”, escreveu.
A lembrança funciona como resposta indireta, mas eficaz, à narrativa que tenta colar ao presidente uma pecha incompatível com sua trajetória política e institucional.
A data e o peso da história
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto foi estabelecido em referência a 27 de janeiro de 1945, quando tropas soviéticas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia. O complexo tornou-se o maior símbolo do genocídio nazista, com estimativas históricas que variam entre 1,3 milhão e 3 milhões de assassinados, majoritariamente judeus.
Evocar esse marco não é um gesto retórico trivial. Trata-se de reafirmar que a memória do Holocausto não pertence a disputas eleitorais ou alinhamentos geopolíticos circunstanciais — ela pertence à humanidade.
O pano de fundo político
No mesmo dia, Flávio Bolsonaro voltou a atacar Lula, afirmando que o presidente teria deixado de condenar o Hamas para criticar Israel e sugerindo, sem provas, que o Brasil se alinharia ao terrorismo. O senador prometeu uma política externa alinhada ao governo israelense e afirmou que o próximo presidente brasileiro não será persona non grata em Israel.
A relação entre os dois países se deteriorou em 2024, quando o então chanceler israelense Israel Katz declarou Lula persona non grata até que se desculpasse por comparar a devastação em Gaza ao genocídio nazista — comparação histórica que gerou controvérsia, mas não configura, por si, antissemitismo.
Entre memória e manipulação
Ao responder com história, e não com insulto, Lula reposiciona o debate: o Holocausto não é um salvo-conduto para governos, nem um artefato retórico para campanhas. É uma advertência permanente sobre o que acontece quando o ódio é normalizado e o autoritarismo encontra plateia.

