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Em Israel, Flávio Bolsonaro mente, acusa Lula de antissemitismo e usa Holocausto como arma política

Discurso em conferência internacional recicla retórica moralista, ignora distinções históricas e instrumentaliza o Holocausto para fins eleitorais e ideológicos.
O senador Flávio Bolsonaro durante reunião com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
O senador Flávio Bolsonaro durante reunião com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

A extrema-direita internacional tem um método recorrente: substituir debate por acusação moral absoluta. Foi exatamente esse roteiro que o senador Flávio Bolsonaro (PL) seguiu ao acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de antissemitismo durante discurso na Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, realizada nesta terça-feira (27), em Israel.

Pré-candidato à Presidência da República, Flávio participou do evento Generation Truth, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, e escolheu um palco estrangeiro para atacar o chefe de Estado brasileiro com uma acusação das mais graves — sem qualquer base jurídica, histórica ou factual que a sustente.

A retórica da “falha moral”

Em tom ensaiado para consumo internacional, o senador afirmou que o Brasil vive uma “profunda falha moral” sob Lula e declarou, sem mediações:

“Permitam-me ser muito claro: Lula é antissemita. Isso não é um slogan. Isso não é exagero. Isso se baseia em suas ideias, em seus assessores, em suas palavras e em suas ações.”

A clareza, contudo, termina na entonação. O argumento repousa sobre uma confusão deliberada entre crítica a um Estado e ódio a um povo, expediente comum em discursos que buscam blindar governos de qualquer responsabilização internacional.

Holocausto como espantalho político

O eixo central da acusação é a declaração feita por Lula em fevereiro de 2024, durante visita à Etiópia, quando comparou a devastação em Gaza ao extermínio de judeus promovido pelo regime nazista. A fala foi uma analogia histórica, não uma equiparação moral entre vítimas e algozes — distinção elementar para qualquer leitor minimamente alfabetizado em História.

Lula disse:

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus.”

Transformar essa crítica à ação militar de um Estado em prova de antissemitismo é uma operação retórica desonesta, que banaliza o próprio conceito que diz defender.

Gaza, mortos e o silêncio seletivo

Desde outubro de 2023, a resposta militar de Israel ao ataque do Hamas, que matou cerca de 1,2 mil pessoas e sequestrou outras 250, provocou uma catástrofe humanitária em Gaza. Segundo autoridades palestinas, o cerco, os bombardeios e as operações terrestres deixaram aproximadamente 60 mil mortos e 145 mil feridos, a maioria civis.

Criticar esse cenário não é negar o Holocausto. É exercer o direito — e o dever — de denunciar violações do direito internacional humanitário.

Encontro com Netanyahu e o alinhamento ideológico

Durante a viagem, Flávio Bolsonaro reuniu-se com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e divulgou imagens do encontro nas redes sociais, reforçando seu alinhamento automático ao governo israelense atual — não ao povo judeu, mas a uma liderança política específica.

No discurso, exaltou a política externa do pai, Jair Bolsonaro, afirmando que o Brasil esteve “com Israel contra o terrorismo, sem dois pesos e duas medidas”. A frase é reveladora: ela rejeita explicitamente qualquer leitura crítica baseada em proporcionalidade, direito internacional ou proteção de civis.

Iran, moral seletiva e oportunismo eleitoral

O senador também atacou a aproximação diplomática do Brasil com o Irã, citando a autorização para a entrada de navios iranianos no Rio de Janeiro em 2023. Ignorou, contudo, que relações diplomáticas não equivalem a endosso ideológico — princípio básico da política externa brasileira desde o século XX.

Ao final, Flávio prometeu que, se eleito, levará o Brasil aos chamados Acordos de Isaac, iniciativa voltada ao fortalecimento das relações entre Israel e países latino-americanos, sob a tutela estratégica dos Estados Unidos.

Entre a acusação e o espelho

O episódio não revela nada sobre Lula — cuja trajetória política inclui relações históricas com comunidades judaicas e reiteradas condenações ao antissemitismo —, mas diz muito sobre quem acusa.

Transformar o Holocausto em instrumento de campanha, confundir deliberadamente judeus com um governo específico e usar a dor histórica como palanque eleitoral não é combate ao antissemitismo. É sua banalização.

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