Rio de Janeiro – Carlos Bolsonaro vai abandonar o ninho da Câmara Municipal carioca para alçar voos mais ambiciosos (e convenientes) rumo ao Senado — só que longe do Rio de Janeiro.
A manobra, arquitetada por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, escancara o plano de sobrevivência política da família diante de um cenário de cerco judicial, saturação eleitoral e disputas internas. Santa Catarina e São Paulo são os destinos mais cotados para a nova empreitada do Zero Dois, cuja biografia é mais associada a operações de bastidor, fake news e espionagem ilegal do que a articulações legislativas.
A diáspora bolsonarista como tática de sobrevivência
Segundo revelou a colunista Bela Megale, de O Globo, e foi confirmada por fontes próximas ao clã, a decisão foi tomada pelo patriarca Bolsonaro e já comunicada ao núcleo do PL. A justificativa oficial? Ampliar a bancada bolsonarista no Senado. O motivo real? Evitar racha familiar, fugir do desgaste local e buscar um reduto mais dócil ao bolsonarismo raiz. No Rio, o terreno já está ocupado: Flávio Bolsonaro vai à reeleição, e a segunda vaga ao Senado está cercada de caciques do PL, todos de olho na partilha do espólio bolsonarista.
A solução encontrada foi simples: exportar o Carlos. E o destino não é aleatório. Santa Catarina desponta como o paraíso ideológico da extrema-direita brasileira. Foi lá que Bolsonaro obteve suas maiores votações, mesmo em meio ao colapso de sua gestão. O bolsonarismo é tão entranhado no estado que já virou identidade cultural. Já São Paulo, embora mais competitivo, pode virar plano B — desde que Eduardo Bolsonaro desista de concorrer ao Senado e, quem sabe, se aventure numa candidatura presidencial que ninguém (além da família) parece levar a sério.
Carlos: de vereador apagado a senador por osmose?
Carlos Bolsonaro nunca foi exatamente uma estrela da política institucional. Seus mandatos como vereador no Rio foram marcados por parcos projetos, obstruções sistemáticas e um protagonismo quase exclusivo nas sombras digitais do bolsonarismo. Foi ele quem montou — e supostamente coordenou — o “gabinete do ódio”, célula subterrânea que alimentou a guerra informacional travada durante o governo do pai. Também é investigado por esquema de espionagem ilegal e uso indevido da estrutura da ABIN, num dos capítulos mais sombrios do bolsonarismo.
Ainda assim, o PL aposta alto: o sobrenome Bolsonaro, para eles, ainda rende dividendos suficientes para garantir uma cadeira no Senado, mesmo longe da base eleitoral. Trata-se de uma eleição majoritária e altamente personalista — terreno ideal para alguém cujo capital político se limita a sobrenome, lealdade cega ao pai e habilidade em incitar raiva nas redes sociais.
A estratégia do patriarca para blindar o clã
O plano de Jair Bolsonaro não é só eleitoral, mas defensivo. Sem cargo eletivo, ele vê no Congresso um escudo potencial contra a avalanche de processos que ameaça sua liberdade e de seus filhos. O Senado, em especial, tem valor estratégico: é a Casa responsável por julgar ministros do STF em processos de impeachment — um delírio cada vez mais recorrente na retórica bolsonarista. Ter aliados fiéis ali é questão de sobrevivência, e Carlos, apesar de inepto como legislador, é obediente como soldado.
A tática de espalhar os filhos pelo mapa político nacional é sintomática. Indica que o clã reconhece seus limites no Rio de Janeiro e aposta numa reconfiguração territorial para manter seu projeto autoritário respirando por aparelhos. A escolha de Santa Catarina não é apenas pragmática — é simbólica. O estado representa a utopia bolsonarista: militarizada, ultraconservadora, antipolítica e blindada por um eleitorado que chama golpe de liberdade.
Obstáculos legais e o cronograma da operação
Para efetivar a mudança de estado, Carlos Bolsonaro terá de transferir seu domicílio eleitoral até seis meses antes da eleição. Também precisará renunciar à vereança ou se desincompatibilizar nos prazos previstos. O prazo-limite para o anúncio oficial é meados de 2026, o que significa que, até lá, o nome do Zero Dois continuará flutuando nos bastidores como peça de um xadrez onde o tabuleiro é o país inteiro — e o rei está nu.
Enquanto isso, o Rio se livra de um peso morto legislativo. E o Senado, ao que tudo indica, pode estar prestes a ganhar mais um entusiasta do obscurantismo.
O Carioca esclarece
Carlos Bolsonaro pode mesmo disputar o Senado por outro estado?
Sim. Desde que ele transfira seu domicílio eleitoral dentro dos prazos legais e esteja filiado a partido com representação na região.
Por que o clã Bolsonaro quer Carlos fora do Rio?
Porque o Rio está politicamente saturado com o sobrenome Bolsonaro, e há disputas internas no PL. Fora isso, é uma manobra estratégica para garantir mais espaço no Senado.
Santa Catarina é reduto garantido do bolsonarismo?
Sim. Foi o estado onde Bolsonaro teve maior vantagem nas últimas eleições, sendo considerado um bastião da extrema-direita brasileira.
Carlos tem chance real de se eleger senador?
Apesar de fraco como parlamentar, Carlos herda votos do bolsonarismo radical e pode ser viável em redutos ideológicos. Mas não será uma eleição fácil.

