O Fio da Meada

PF diz que suspeito de ser tesoureiro do CV se reuniu com secretário de Cláudio Castro

Relatório da Operação Zargun revela encontro entre tesoureiro do CV e secretário de Defesa do Consumidor do Rio, Gutemberg Fonseca, para discutir apoio político.
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. — Reprodução/Fernando Frazão/Agência Brasil
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. — Reprodução/Fernando Frazão/Agência Brasil
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

A Polícia Federal identificou que Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão e apontado como tesoureiro do Comando Vermelho (CV), se reuniu com o secretário de Defesa do Consumidor do Rio, Gutemberg Fonseca, integrante do governo de Cláudio Castro (PL), para tratar de apoio político.

A informação consta no relatório final da Operação Zargun, de 27 de setembro, que investiga conexões entre agentes públicos e o tráfico internacional de armas e drogas, segundo a Folha de S.Paulo.


Encontro com integrante do governo

De acordo com a PF, o encontro entre Índio e Gutemberg ocorreu em 13 de maio. Mensagens extraídas do celular do criminoso mostram que ele relatou a conversa ao ex-secretário Alessandro Pitombeira Carracena, que já chefiou a Secretaria de Esporte e Lazer e foi subsecretário de Defesa do Consumidor.

No áudio, Índio afirmou que conversou sobre “como poderiam se ajudar politicamente”. Em outra mensagem, disse que Gutemberg poderia “ligar para perguntar quem era e se estava dentro do problema ou não”, o que os investigadores interpretaram como pedido de cobertura política.

Carracena respondeu: “Já falei com eles, falei que você é firme e é importante pra ele ter ao lado”, frase que a PF considerou indicativo de apoio ao projeto político do traficante.


PF aponta tentativa de cooptação de autoridades

O relatório da Operação Zargun afirma que os diálogos revelam uma estratégia da facção para cooptar autoridades do Executivo estadual e usar a máquina pública para promover seus interesses.

Em 5 de junho, Índio enviou a Carracena um vídeo de Gutemberg em um evento da Enel, comentando: “Ficou forte ele com Enel, né?”. Carracena respondeu: “Muito é por causa de você”, ao que o suspeito replicou: “Não posso ficar forçando ele a me ajudar se, no coração dele, não quer me ajudar. Ainda mais depois do que eu fiz.

A PF não especificou qual teria sido o auxílio prestado. No dia seguinte, as redes da secretaria e de Gutemberg divulgaram registros do mesmo evento, destacando uma parceria institucional com a Enel.


Tesoureiro do CV planejava carreira política

Preso na deflagração da Operação Zargun, Índio do Lixão é apontado como principal articulador financeiro do Comando Vermelho, com ligações com chefes do Complexo do Alemão. Segundo os investigadores, ele controlava o tráfico no Lixão, em Duque de Caxias, e mantinha contatos com políticos e autoridades para favorecer a facção.

A PF apurou que o grupo planejava lançá-lo candidato a vereador na cidade. Índio foi indiciado por promover, financiar ou integrar organização criminosa, além de associação para o tráfico internacional de armas e drogas.


Envolvimento de ex-secretários e prisões

O ex-secretário Alessandro Pitombeira Carracena e o deputado Tiego Raimundo dos Santos Silva (TH Joias) também foram presos na operação. Carracena, segundo a PF, atuava como braço político e jurídico da facção, recebendo valores ilícitos para vazar informações sobre operações policiais.

Ele foi indiciado por integrar organização criminosa, violação de sigilo funcional e corrupção ativa.


Defesas negam envolvimento

A Secretaria de Defesa do Consumidor afirmou que Gutemberg Fonseca desconhecia o histórico criminal de Índio e que qualquer contato foi casual, sem relação ilícita.

“O secretário atua dentro da lei e trata apenas de pautas institucionais e republicanas”, disse a pasta em nota.

A Enel declarou que realiza reuniões “frequentes com autoridades locais” e que “não tem qualquer relação com Gabriel Dias de Oliveira”.

O advogado Rodrigo Roca, defensor de Carracena, negou irregularidades:

“O diálogo com Índio, ao contrário da narrativa acusatória, inseriu-se no contexto de busca legítima por apoio político.”

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