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Assimetria Religiosa

“Estamos evangelizando”: o Estado laico em modo palco político com Alexandre Isquierdo, secretário de Castro

✅ Vídeo de líder evangélico celebra “evangelização” com apoio da prefeitura
✅ Palco gospel foi o único religioso entre os 13 do Réveillon
✅ Lideranças afro apontam uso de dinheiro público para doutrinação
✅ Debate não é música, é poder simbólico e memória
✅ Tradições afro-brasileiras seguem fora do centro da festa que ajudaram a criar

A frase não deixa margem a eufemismos. “Estamos evangelizando.” Dita em tom de vitória, cercada de jovens fiéis e registrada para as redes, ela escancara o que estava subentendido no Réveillon de Copacabana: o espaço público, financiado pelo Estado, virou instrumento explícito de proselitismo religioso.

No vídeo divulgado por Alexandre Isquierdo — secretário de Estado, pastor e vereador licenciado — a celebração não é a música, nem a convivência plural. É a “oportunidade” concedida pela prefeitura para “marcar posição” e “declarar que o Rio de Janeiro é do Senhor Jesus”. A fala do líder identificado como Lucão, agradecendo o palco gospel, cristaliza o ponto: trata-se de poder, não de diversidade.

Da Pequena África à praça ocupada

Copacabana não nasceu gospel. A virada carioca foi moldada, desde o fim dos anos 1950, por rituais de matriz africana articulados por Tata Tancredo — homem negro, sacerdote, fundador de uma liturgia urbana que ensinou o Brasil a vestir branco, ofertar flores ao mar e pular sete ondas. Como na tragédia grega, o coro permanece, mas os autores são empurrados para fora do palco.

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O paralelo histórico é inevitável: na Roma antiga, a religião oficial ocupava o fórum; as crenças dissidentes, as margens. Troque-se o Império pelo orçamento público e o padrão se repete. O que se chama de “programação democrática” revela-se hierarquia simbólica.

“Diversidade não se proclama no microfone; se pratica na partilha do palco.”

A crítica que não é contra a música

Lideranças afro-brasileiras foram claras. O problema não é a existência de um palco gospel. É a assimetria. É a institucionalização de uma fé enquanto as tradições que fundaram a celebração permanecem sem reconhecimento equivalente. O babalorixá Márcio de Jagun foi direto: uso de dinheiro público para doutrinação religiosa, em um Estado laico, não é detalhe — é desvio.

Ivanir dos Santos, babalawô e professor, apontou o óbvio que insiste em ser negado: diversidade exige reconhecimento concreto. Quando apenas uma religião ganha palco próprio, o discurso plural vira peça publicitária.

Política, alianças e silêncio seletivo

A defesa do palco gospel pelo prefeito reforça alianças antigas. A relação com Silas Malafaia atravessa décadas e se manifesta sem pudor. A amizade é pública; os efeitos, também. Quando o poder municipal escolhe quem amplificar, escolhe também quem silenciar.

O contexto amplia a gravidade. Malafaia foi ator central do bolsonarismo, com histórico de ataques ao STF e envolvimento em investigações. Nada disso impede que sua igreja seja a única a receber chancela religiosa explícita no maior evento do calendário da cidade.

Memória como campo de disputa

O Réveillon reuniu 5,1 milhões de pessoas. A festa segue grandiosa. Mas a pergunta permanece incômoda: quem tem direito de se ver representado no centro do ritual público? A tradição afro-brasileira, transformada em “folclore” conveniente, continua sendo celebrada sem seus sujeitos.

A frase “estamos evangelizando” não é apenas um agradecimento. É a confissão de um projeto. E projetos, quando ocupam o Estado, precisam ser confrontados com a Constituição — e com a história.

JR Vital
JR Vitalhttps://diariocarioca.com/
JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.
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