Freio na Farra

A Vitória do Erário: Fachin blinda Rio de Janeiro contra a ofensiva dos barões dos ônibus

O Supremo Tribunal Federal mantém a suspensão do pagamento de R$ 45,6 milhões aos consórcios, priorizando maternidades e assistência social em detrimento do lucro imediato das empresas de ônibus.
Prefeito Eduardo Paes
Prefeito Eduardo Paes
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

Em uma decisão que reafirma a primazia do interesse público sobre os balanços financeiros de entes privados, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, manteve o bloqueio ao desembolso imediato de R$ 45,6 milhões pela Prefeitura do Rio aos consórcios de transporte.

A negativa ao recurso das empresas, como o consórcio Transcarioca, fundamenta-se em um princípio elementar de responsabilidade fiscal: a preservação do orçamento municipal de 2026 para áreas sensíveis como a saúde e programas de transferência de renda.

No xadrez jurídico, o STF sinaliza que o subsídio público não pode ser um cheque em branco, especialmente quando o sistema de mobilidade da capital fluminense permanece em um estado de transição crítica.

A Anatomia do Conflito: Glosas e Precatórios

O cerne da disputa reside nas “glosas” — descontos administrativos que a Prefeitura aplica quando identifica irregularidades ou descumprimentos de metas pelos consórcios. As empresas, habituadas a uma relação de dependência umbilical com os cofres públicos, tentaram “furar a fila” constitucional dos precatórios por meio de liminares. Fachin, no entanto, foi cirúrgico: obrigar o pagamento imediato violaria o Artigo 100 da Constituição e esvaziaria os R$ 17,7 milhões restantes na rubrica de subsídios para 2026. A narrativa dos empresários, que alegavam a existência de R$ 300 milhões em caixa, sucumbiu diante da transparência dos dados da Secretaria Municipal de Fazenda.

Presidente do STF nega recurso de empresas de ônibus e mantém suspensão de repasse milionário da Prefeitura do Rio - Diário Carioca
Presidente do STF nega recurso de empresas de ônibus e mantém suspensão de repasse milionário da Prefeitura do Rio – Reprodução

Historicamente, o transporte público no Rio é um setor marcado por crises cíclicas e gestões que, no passado, operaram sob a égide da opacidade. A tentativa de paralisação de 19 linhas no final do ano passado, sob o pretexto de “falta de combustível”, foi interpretada pelo Centro Administrativo de São Sebastião não como uma crise logística, mas como uma manobra de pressão política — um lockout disfarçado que a justiça agora ajuda a desarmar.

O Custo do Subsídio e o Futuro da Mobi-Rio

A tabela abaixo detalha a realidade financeira do setor, expondo que o sistema não está desassistido, mas sim sob uma necessária auditoria de resultados:

Indicador Financeiro (Jan-Nov)Valores em R$ (Consórcio Exemplo)Observação Técnica
Receita Tarifária283,8 MilhõesArrecadação direta via usuários.
Subsídios Pagos82,6 MilhõesInjeção de capital público para operação.
Saldo Disponível (Fazenda)17,7 MilhõesMargem orçamentária crítica para 2026.
Pretensão Judicial Rejeitada45,6 MilhõesMontante que comprometeria maternidades.

Rumo à Nova Licitação

A decisão do STF ocorre em um momento de transição estrutural. O acordo firmado para o encerramento gradual das concessões dos consórcios Intersul, Internorte, Transcarioca e Transoeste transfere a responsabilidade para a Mobi-Rio ou contratos emergenciais até a nova licitação. Esse movimento de “estatização controlada” via empresa pública é a resposta da gestão municipal à incapacidade do setor privado de manter a regularidade do serviço sem chantagens fiscais. Em 2026, a mobilidade urbana do Rio deixará de ser um jogo de pressões judiciais para se tornar, espera-se, uma política de estado com foco no usuário.

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