A política carioca, em sua eterna capacidade de reciclar o que há de mais arcaico e mofado, prepara um novo ato de cinismo. Com a saída de Flávio Bolsonaro da disputa pelo Senado em 2026, o vácuo deixado pelo “01” já tem um herdeiro de estimação: Marcelo Crivella.
O ex-prefeito, que encerrou seu mandato em 2020 saindo da prefeitura direto para o cárcere, agora é o favorito para representar a “família e os bons costumes” na Casa Alta.
Para o bolsonarismo, Crivella é a peça de encaixe perfeita: garante o apoio das máquinas da Igreja Universal e da Assembleia de Deus, enquanto oferece um porto seguro para os interesses do clã que vê no Rio de Janeiro seu feudo particular.
O currículo que Crivella apresenta aos fiéis, no entanto, é bem diferente daquele que consta nos tribunais. O homem que se apresenta como paladino da moralidade carrega a mancha indelével do “QG da Propina”, um esquema de corrupção instalado no coração da prefeitura que, segundo o Ministério Público, arrecadou mais de R$ 50 milhões em subornos. As investigações revelaram que Crivella, identificado nas planilhas do crime pelo codinome “Zero Um”, operava através de seu homem de confiança, Rafael Alves, transformando a administração pública em um balcão de negócios para empresários amigos.
A “honradez” de Crivella também foi testada — e reprovada — pela Justiça Eleitoral. Em outubro de 2024, o TRE-RJ confirmou sua inelegibilidade até 2028 por abuso de poder político e econômico, citando o uso da máquina pública para financiar campanhas via caixa dois. O bispo licenciado, que já foi flagrado usando funcionários da Comlurb como claque eleitoral, agora tenta uma manobra jurídica para se manter no jogo, contando com a leniência de um sistema que parece ter memória curta para quem reza com o dízimo alheio.
O altar serve para orar ou para lavar dinheiro?
Será que o eleitor fluminense acredita que a santidade de Crivella é imune às provas de movimentações atípicas de R$ 6 bilhões na Igreja Universal? O uso da estrutura religiosa para ocultar o rastro da corrupção municipal é o ápice da profanação. Quando a direita se une para lançar um nome com esse histórico, ela não está buscando um representante, está buscando um cúmplice. Crivella no Senado não é uma renovação; é a garantia de que o QG da Propina terá imunidade parlamentar e um microfone potente para pregar a hipocrisia em rede nacional.
A Capivara do “Santo”: O Prontuário de Crivella
| Acusação / Crime | Status Jurídico | O “Modus Operandi” | Consequência |
| QG da Propina | Réu por corrupção e organização criminosa. | Arrecadação de R$ 50 milhões em propinas na Prefeitura. | Prisão em 2020 e afastamento do cargo. |
| Abuso de Poder | Condenado pelo TRE-RJ em 2024. | Uso da Comlurb e da máquina para fins eleitorais. | Inelegibilidade declarada até 2028. |
| Lavagem na IURD | Investigado pelo Ministério Público. | Movimentação de R$ 6 bilhões via Igreja Universal. | Suspeita de ocultação de bens da corrupção. |
| Caixa Dois | Réu na Justiça Eleitoral. | Recebimento de valores não contabilizados. | Cassação de mandato de deputado. |
A análise dos dados expõe a farsa: o “favoritismo” de Crivella é construído sobre os escombros da ética. A aliança com os Bolsonaro é o abraço dos desesperados: um precisa de foro privilegiado, o outro precisa dos votos do rebanho. Enquanto a segurança pública é usada como espantalho eleitoral pelo governador Cláudio Castro, os bastidores fritam a dignidade do Rio em troca de uma bancada evangélica dócil e remunerada. O Rio merece o Senado ou merece uma certidão de antecedentes criminais atualizada de seus candidatos? O “Zero Um” da propina quer ser o número um das urnas, e o silêncio dos “homens de bem” é o tapete vermelho para essa nova invasão do sagrado pelo profano.
Com informações da Agenda do Poder





