Enquanto as elites globais discutem inteligência artificial em fóruns climatizados, o Brasil real, aquele que o mapa muitas vezes teima em esquecer, vê na poeira das estradas uma chance de sobrevivência.
A Carreta Digital, iniciativa gestada no Ministério das Comunicações em parceria com a RBCIP, encerrou o ciclo de 2025 com o saldo de 9,8 mil jovens que, em vez de serem engolidos pela obsolescência, agora seguram certificados de cursos básicos de tecnologia.
O projeto, um caminhão adaptado que funciona como um oásis de saber em regiões desertas de infraestrutura, registrou 8 mil certificações apenas no último ano.
É a materialização de uma política que, embora tardia diante do atraso histórico imposto ao país, tenta conferir dignidade produtiva a quem o mercado costuma reservar apenas a informalidade.
No entanto, é impossível não notar o sarcasmo do destino: o país que ensina a montar “PC Gamers” em carretas é o mesmo que, em níveis federais e estaduais, assiste ao esvaziamento de seus laboratórios acadêmicos por falta de bolsas.
O Horizonte de 2026 e a Miragem da Soberania
A projeção para 2026 é ambiciosa: superar as 20 mil capacitações. Em um discurso que evita os eufemismos da tecnocracia vazia, o ministro Frederico de Siqueira Filho pontuou que o foco é o mercado qualificado. “Além de gerar inclusão, avançamos na construção da soberania digital”, afirmou.
O termo “soberania” aqui soa quase como um manifesto de resistência: sem mão de obra própria, o Brasil continuará sendo um mero quintal digital, consumindo tecnologias desenvolvidas no Hemisfério Norte enquanto exporta cérebros que não encontram financiamento em solo pátrio.
A Carreta já deixou rastros por Maranhão, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Neste último, o recesso de dezembro foi precedido pela formatura de 85 jovens que agora compreendem que o “Espaço Maker” — esse termo moderno para o velho canteiro de obras do intelecto — é o lugar onde a teoria finalmente encontra a prática.
Inovação Fora das Redomas de Vidro
Aline Marcon, coordenadora do projeto, toca no ponto nevrálgico: a inovação não pode ser um privilégio de laboratórios assépticos. “O compromisso é tirar a inovação dos laboratórios e levá-la para onde ela é mais necessária”, ressaltou. De fato, transformar um laboratório itinerante em ponte para a cidadania é um ato combativo contra o fascismo da exclusão, que prefere a juventude armada ou alienada.
A grade curricular foca no utilitário, naquilo que gera renda imediata em uma economia capenga:
- Robótica: A base da automação para um futuro que já chegou;
- Manutenção de Celulares: O ofício indispensável da era da conectividade total;
- Montagem de PCs de Alto Desempenho: Onde o entretenimento se transforma em infraestrutura técnica.
Geografia da Capacitação: O Mapa do Conhecimento
Os números revelam onde o Estado conseguiu, finalmente, estacionar sua estrutura para combater o retrocesso educacional.
| Estado | Alunos Capacitados (2025) |
| Maranhão | 3.007 |
| Distrito Federal | 2.526 |
| Mato Grosso do Sul | 2.307 |
| Rio Grande do Sul | 1.962 |
| Pernambuco | 85 |
| Fonte: Ministério das Comunicações (MCom) |
Análise: O Abismo entre o Conserto e a Criação
Embora a Carreta Digital seja um pilar de justiça social imediata, o Diário Carioca traça um paralelo histórico necessário. Enquanto celebramos jovens aprendendo a consertar celulares — uma alforria digital importante —, não podemos ignorar que, no mesmo orçamento da União, a pesquisa científica de longo prazo sofre cortes que inviabilizam a criação de tecnologia nacional.
A manutenção do status quo imperialista se dá justamente assim: o centro do mundo cria o chip, e a periferia aprende a parafusá-lo. O combate ao retrocesso exige que a Carreta não seja o destino final, mas o primeiro passo de uma jornada que deve levar esse jovem da periferia à coordenação de laboratórios de alta tecnologia, hoje asfixiados pela falta de investimento.





