
JR VitalJR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha…
Há momentos em que o verbo inflama mais que a pólvora. Silas Malafaia, velho conhecido da simbiose entre púlpito e palanque, agora enfrenta o peso institucional do que chamou de “liberdade de expressão”. O ministro Alexandre de Moraes determinou que o pastor se explique ao Supremo Tribunal Federal após ataques diretos — ainda que sem CPF nominal — ao Alto Comando do Exército brasileiro.
O episódio remonta a abril do ano passado, na Avenida Paulista, em um ato convocado por Jair Bolsonaro para pressionar por anistia aos responsáveis pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. No palanque, Malafaia vociferou contra generais de quatro estrelas, chamando-os de “frouxos”, “covardes” e “omissos”, afirmando que “não honram a farda que vestem”. A fala, amplificada nas redes sociais, ultrapassou centenas de milhares de visualizações.
Como em tragédias clássicas, de Ésquilo a Shakespeare, o coro pode não citar nomes — mas todos sabem quem está no palco.
“Quando o insulto se fantasia de opinião, o ataque à democracia passa a se vender como fé.”
Da retórica ao enquadramento jurídico
A Procuradoria-Geral da República avaliou que o discurso atingiu diretamente o comandante do Exército e sugeriu prática de crime funcional, como prevaricação. Para o procurador-geral Paulo Gonet, a gravidade não reside apenas nas palavras, mas na estratégia: discurso público, contexto golpista e difusão deliberada em plataformas digitais.
Por essa razão, o caso foi remetido ao gabinete de Moraes, relator dos inquéritos que investigam redes de desinformação e articulações antidemocráticas. Mesmo durante o recesso do Judiciário, o ministro determinou a notificação do pastor, que recebeu a intimação dias depois.
Análise & Contexto
A defesa previsível: perseguição e vitimização
Malafaia reagiu como manda o roteiro. Alegou ausência de foro privilegiado, disse não ter citado nomes e acusou Moraes e Gonet de perseguição política. Transformou o processo em prova de que, segundo ele, o STF criminaliza opiniões.
É um argumento recorrente no léxico do bolsonarismo: atacar instituições, deslegitimar a Justiça e, quando confrontado, vestir-se de vítima. O paradoxo é evidente — reivindica-se liberdade absoluta para atacar, mas nega-se qualquer consequência jurídica.
Militares, silêncio e democracia
O pano de fundo é mais amplo. Desde 2023, o Exército tenta reconstruir sua imagem institucional após o flerte de setores da caserna com o golpismo. Os ataques de Malafaia atingem exatamente esse ponto sensível: pressionar militares a “marcar posição” fora dos limites constitucionais.
Na história republicana brasileira, sempre que civis exaltados tentaram arrastar as Forças Armadas para disputas políticas, o resultado foi instabilidade — de 1954 a 1964, da quartelada ao regime. O STF, desta vez, sinaliza que não tratará como retórica inofensiva aquilo que ecoa como incitação.





