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Como a digitalização silenciosa mudou a rotina de serviços, trabalho e estudos no Rio

A digitalização silenciosa acelerou drasticamente entre 2020 e 2024, modificando estruturas que pareciam imutáveis e criando novas dinâmicas sociais que hoje moldam a rotina de milhões de cariocas.

JR Vital
JR Vital fev. 12, 2026

A transformação digital não aconteceu de uma hora para outra. No Rio de Janeiro, assim como em outras capitais brasileiras, a mudança na forma como trabalhamos, estudamos e acessamos serviços públicos e privados veio de forma gradual, quase imperceptível no dia a dia. Essa digitalização silenciosa acelerou drasticamente entre 2020 e 2024, modificando estruturas que pareciam imutáveis e criando novas dinâmicas sociais que hoje moldam a rotina de milhões de cariocas.

A pandemia como ponto de inflexão digital no Rio

Segundo dados do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), em 2019, apenas 46% dos domicílios brasileiros tinham acesso simultâneo a computador e internet. Em 2023, esse número saltou para 58%, com crescimento expressivo nas regiões metropolitanas. No Rio de Janeiro, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE registrou que 83,7% dos domicílios possuíam acesso à internet em 2023, contra 78,3% em 2019.

O período de isolamento social forçou empresas, escolas e órgãos públicos a adotarem soluções digitais em tempo recorde. O que antes era visto como tendência futura tornou-se realidade imediata. Plataformas de videoconferência, aplicativos de delivery, assinaturas digitais e ambientes virtuais de aprendizagem deixaram de ser novidade para se tornarem parte essencial da infraestrutura urbana.

O trabalho remoto e híbrido na capital fluminense

O modelo de trabalho no Rio passou por mudanças estruturais. Dados da FGV Social apontam que, em 2023, 22% dos trabalhadores formais em capitais brasileiras exerciam alguma forma de trabalho remoto ou híbrido, contra apenas 6% em 2019. Na cidade do Rio de Janeiro, setores como tecnologia, serviços financeiros e comunicação lideram essa transformação.

RIO DE JANEIRO

Análise & Contexto

A digitalização silenciosa acelerou drasticamente entre 2020 e 2024, modificando estruturas que pareciam imutáveis e criando novas dinâmicas sociais que hoje moldam a rotina de milhões de cariocas.

A Pesquisa Home Office Brasil 2023, realizada pela SAP Consultoria em parceria com a FIA, revelou que 67% das empresas que adotaram trabalho remoto durante a pandemia mantiveram algum grau de flexibilidade após o retorno presencial. Entre os trabalhadores cariocas entrevistados, 73% afirmaram preferir modelos híbridos que combinam dias em escritório e em casa.

Quais setores adotaram o trabalho remoto no Rio?

A digitalização do trabalho não foi uniforme. Setores como tecnologia da informação, marketing digital, consultorias e serviços financeiros apresentaram taxas de adoção acima de 70%. Por outro lado, comércio, saúde e serviços essenciais mantiveram modelos predominantemente presenciais.

Segundo relatório da McKinsey Brasil de 2023, cerca de 30% das funções em áreas administrativas e de tecnologia têm potencial para serem executadas remotamente sem perda de produtividade. Esse percentual cai para menos de 10% em setores de atendimento presencial e manufatura.

SetorPercentual de adoção remota/híbrida (2023)Fonte
Tecnologia da Informação78%SAP Consultoria/FIA
Serviços Financeiros65%McKinsey Brasil
Marketing e Comunicação71%FGV Social
Educação (administrativa)54%Cetic.br
Comércio12%PNAD Contínua/IBGE

Esses dados mostram que a digitalização do trabalho criou uma nova geografia urbana. Bairros tradicionalmente residenciais, como Tijuca e Barra da Tijuca, registraram aumento no consumo diurno de serviços locais, enquanto regiões de grande concentração de escritórios, como Centro e Botafogo, enfrentaram redução no fluxo de pessoas durante a semana.

A transformação da educação e dos métodos de estudo

A educação foi uma das áreas mais impactadas pela digitalização. Dados do Censo da Educação Superior 2022, divulgado pelo Inep, mostram que o número de matrículas em cursos de graduação a distância no estado do Rio de Janeiro cresceu 34% entre 2019 e 2022, enquanto as matrículas presenciais caíram 8% no mesmo período.

No ensino básico, a realidade foi diferente. A rede municipal do Rio enfrentou desafios estruturais para manter aulas remotas durante a pandemia. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, em 2021, cerca de 23% dos alunos da rede não possuíam acesso adequado à internet ou dispositivos para acompanhar as aulas online. Essa lacuna evidenciou as desigualdades digitais existentes na cidade.

Como os estudantes adaptaram suas rotinas de estudo?

A necessidade de autonomia forçou estudantes a buscarem novas ferramentas e métodos. Plataformas de videoaulas, aplicativos de organização e recursos digitais de leitura tornaram-se comuns. Muitos estudantes passaram a estudar melhor usando PDFs, aproveitando funcionalidades como busca por palavras-chave, anotações digitais e portabilidade para diferentes dispositivos, o que facilitou a gestão de materiais extensos sem depender de impressões.

Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado em 2023, analisou hábitos de estudo de 1.200 alunos de graduação. Os resultados mostraram que 82% passaram a utilizar materiais digitais como principal fonte de conteúdo, contra 54% em 2019. Entre as razões apontadas estão a facilidade de acesso, economia de custos com impressão e maior capacidade de organização.

Serviços públicos digitais: avanços e limitações

O governo do estado do Rio de Janeiro intensificou a digitalização de serviços públicos. Segundo dados da Secretaria de Transformação Digital, em 2023, mais de 180 serviços estaduais estavam disponíveis integralmente online, um crescimento de 210% em relação a 2019.

A plataforma Gov.br, do governo federal, concentra diversos serviços antes acessíveis apenas presencialmente. Dados de 2023 indicam que o Rio de Janeiro registrou 8,3 milhões de usuários ativos na plataforma, com destaque para serviços como consulta ao CPF, carteira de trabalho digital, emissão de certidões e agendamento de atendimentos.

Os serviços digitais alcançaram toda a população?

Apesar dos avanços, a exclusão digital permanece como desafio. Pesquisa TIC Governo Eletrônico 2022, do Cetic.br, revelou que 38% dos brasileiros que tentaram usar serviços públicos digitais encontraram alguma dificuldade, sendo as principais barreiras a falta de familiaridade com tecnologia (43%), problemas de conectividade (31%) e interfaces pouco intuitivas (26%).

No Rio de Janeiro, a Defensoria Pública do Estado relatou aumento de 47% nas solicitações de assistência para acesso a serviços digitais entre 2021 e 2023, evidenciando que parte da população ainda depende de intermediação para exercer direitos básicos no ambiente digital.

Barreira para acesso digitalPercentual de usuários afetadosFonte
Falta de familiaridade com tecnologia43%Cetic.br
Problemas de conectividade31%Cetic.br
Interface pouco intuitiva26%Cetic.br
Ausência de dispositivos adequados19%PNAD Contínua/IBGE

Esses números demonstram que a digitalização de serviços públicos, embora necessária, não elimina automaticamente as desigualdades. Ao contrário, pode aprofundá-las quando não acompanhada de políticas de inclusão digital e capacitação.

O comércio eletrônico e os novos hábitos de consumo

O varejo carioca transformou-se radicalmente. Segundo a ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), o e-commerce no estado do Rio de Janeiro movimentou R$ 28,7 bilhões em 2023, crescimento de 156% em relação a 2019. O número de consumidores online no estado passou de 4,2 milhões para 7,1 milhões no mesmo período.

Categorias como alimentos, produtos de limpeza e farmácia experimentaram crescimento expressivo. Dados da Nielsen mostram que, em 2023, 41% dos cariocas faziam compras online de supermercado ao menos uma vez por mês, comparado a apenas 9% em 2019.

Aplicativos de delivery tornaram-se parte da infraestrutura urbana. Segundo relatório da iFood, divulgado em 2023, o Rio de Janeiro possui mais de 45 mil estabelecimentos cadastrados em plataformas de entrega, gerando mais de 80 mil oportunidades de trabalho para entregadores.

Infraestrutura digital: gargalos e investimentos

A expansão dos serviços digitais exigiu investimentos em infraestrutura. Dados da Anatel mostram que, em 2023, o Rio de Janeiro possuía cobertura 4G em 94,3% do território urbano e 5G disponível em 37% da cidade, concentrado nas zonas Sul, Barra e parte do Centro.

A velocidade média de internet fixa na cidade, segundo o Speedtest Global Index de 2023, era de 121 Mbps para download, acima da média nacional de 98 Mbps, mas ainda distante de cidades como São Paulo (142 Mbps) e Curitiba (135 Mbps).

A desigualdade no acesso à internet de qualidade

Bairros da Zona Oeste e de áreas periféricas apresentam infraestrutura inferior. Estudo da FGV DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas), realizado em 2022, identificou que moradores de comunidades cariocas pagam, em média, 23% a mais por internet fixa com velocidade 40% inferior à contratada em bairros de classe média alta.

Essa desigualdade impacta diretamente o acesso a trabalho remoto, educação online e serviços digitais, perpetuando ciclos de exclusão social que a digitalização deveria ajudar a romper.

Impactos na mobilidade urbana e no uso do espaço público

A digitalização alterou padrões de deslocamento. Dados da Secretaria Municipal de Transportes indicam que o uso do transporte público no Rio caiu 18% entre 2019 e 2023, mesmo com o fim das restrições sanitárias. Parte dessa redução é atribuída ao trabalho remoto e às compras online.

Por outro lado, o aumento das entregas por aplicativo elevou o tráfego de veículos leves e motocicletas. Segundo a CET-Rio, o número de motos circulando diariamente no Centro aumentou 31% no mesmo período, trazendo novos desafios para a gestão do trânsito urbano.

Saúde digital: telemedicina e acesso a cuidados

A telemedicina, autorizada em caráter emergencial em 2020 e regulamentada definitivamente em 2022, transformou o acesso à saúde. Dados do Conselho Federal de Medicina mostram que, em 2023, foram realizados mais de 2,3 milhões de atendimentos por telemedicina no estado do Rio de Janeiro, sendo 68% deles consultas de retorno, renovação de receitas e orientações médicas.

A Secretaria Estadual de Saúde implementou a plataforma Saúde.Rio, que integra agendamento de consultas, acesso a resultados de exames e prontuário eletrônico. Até o final de 2023, a plataforma contabilizava 3,2 milhões de usuários cadastrados.

Especialistas apontam que a telemedicina reduz filas de espera em unidades básicas para casos de baixa complexidade, mas ainda enfrenta resistência de profissionais e pacientes para exames que exigem avaliação presencial.

Desafios de segurança digital e proteção de dados

O aumento do uso de plataformas digitais trouxe novos riscos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, o Rio de Janeiro registrou crescimento de 89% nos crimes cibernéticos entre 2019 e 2022, incluindo golpes por aplicativos de mensagens, fraudes bancárias online e invasões de contas.

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) recebeu 417 notificações de incidentes de segurança envolvendo dados de residentes do Rio de Janeiro em 2023, um aumento de 140% em relação a 2021.

A conscientização sobre segurança digital ainda é limitada. Pesquisa da Serasa Experian, realizada em 2023, mostrou que apenas 34% dos usuários cariocas de serviços digitais utilizam autenticação em dois fatores, e 52% repetem a mesma senha em múltiplas plataformas.

Perspectivas futuras: o que esperar da digitalização contínua

A tendência é de aprofundamento da digitalização em todas as esferas. Segundo projeções da IDC Brasil, até 2027, 75% das empresas brasileiras de médio e grande porte terão adotado modelos híbridos permanentes de trabalho. No setor público, a meta do governo federal é digitalizar 100% dos serviços até 2026.

Tecnologias emergentes como inteligência artificial generativa, automação de processos e internet das coisas devem transformar ainda mais a rotina urbana. No entanto, especialistas alertam que sem políticas efetivas de inclusão digital, capacitação profissional e regulação adequada, os benefícios da digitalização podem concentrar-se em grupos já privilegiados.

A experiência dos últimos anos no Rio de Janeiro mostra que a tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas não neutra. Sua implementação reflete e pode amplificar desigualdades existentes quando não acompanhada de investimento em infraestrutura universal, educação digital e proteção social.

A digitalização silenciosa que transformou o Rio de Janeiro nos últimos anos não foi homogênea nem isenta de contradições. Os dados apresentados mostram avanços significativos em áreas como trabalho remoto, educação a distância, comércio eletrônico e serviços públicos digitais. Ao mesmo tempo, revelam lacunas estruturais que deixam parte significativa da população à margem desses benefícios.

As estatísticas oficiais de IBGE, Cetic.br, Anatel e outras instituições demonstram que a infraestrutura digital cresceu, mas de forma desigual no território urbano. A capacitação digital da população avançou, mas não na velocidade necessária para acompanhar a digitalização acelerada de serviços essenciais.

Os caminhos possíveis para os próximos anos envolvem investimento em conectividade de qualidade em áreas periféricas, programas amplos de alfabetização digital, regulação efetiva de plataformas e proteção de dados dos usuários. Apenas com essas medidas a digitalização poderá cumprir seu potencial de democratização do acesso a oportunidades, e não se tornar mais um vetor de exclusão social.

Para profissionais, estudantes e gestores públicos, compreender essas dinâmicas é essencial para navegar a cidade digital que já existe e moldar aquela que ainda está por vir. Os dados estão disponíveis. O desafio está em transformá-los em políticas efetivas e práticas inclusivas.

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