A política fluminense, mestre em reciclar personagens de trajetórias interrompidas pela justiça, assiste agora a uma movimentação que beira o surrealismo político. Wilson Witzel, o ex-juiz que ascendeu ao Palácio Guanabara na esteira do bolsonarismo e despencou em um processo de impeachment histórico em 2020, anunciou sua pré-candidatura ao governo do Rio de Janeiro para o pleito de outubro. Sem partido e carregando o estigma da cassação, Witzel tenta agora vender a imagem de um homem “mais experiente e cauteloso”, uma narrativa que ignora a densidade das acusações de corrupção na saúde que o retiraram do poder em meio à maior crise sanitária do século.
A Narrativa do “Linchamento” e a Amnésia Estratégica
Em vídeo publicado em suas redes sociais, o ex-governador adotou um tom vitimista, classificando seu afastamento como um “linchamento público”. Essa retórica, comum a políticos que tentam contornar decisões colegiadas de tribunais e casas legislativas, busca apelar para uma base que se sente traída pelo sistema tradicional. Witzel afirma que hoje compreende os “mecanismos do poder”, sugerindo que sua queda foi fruto de uma armadilha, e não de falhas éticas ou administrativas. O Diário Carioca observa que essa estratégia de “menos improviso e mais método” é uma tentativa de se distanciar da imagem errática que marcou sua gestão, embora o peso político de sua inelegibilidade — que oficialmente expirou — ainda gere debates jurídicos sobre suas condições reais de registro.
O Palco de 2026: Entre o Centro-Direita e o Favoritismo de Paes
Witzel mira uma filiação até abril, buscando abrigo em siglas de centro-direita que possam oferecer o tempo de TV e os recursos necessários para uma campanha de “outsider experiente”. Ao ironizar o favoritismo de Eduardo Paes, o ex-governador tenta polarizar com a atual gestão da capital, apostando no desgaste natural de quem está no poder. No entanto, o cenário atual é muito distinto de 2018. A fragmentação do campo conservador e o avanço de lideranças mais consistentes tornam a jornada de Witzel um caminho íngreme. A política do Rio, já tão fustigada por sucessivas crises de liderança, encara o anúncio como uma provocação à memória institucional do estado.
Reação das Instituições e o Vácuo de Poder
As instituições fluminenses recebem o anúncio com ceticismo. O impeachment de Witzel foi decidido por um tribunal misto de forma contundente, fundamentado em desvios nos contratos da Organização Social Unir Saúde. A tentativa de retorno não é apenas uma movimentação eleitoral, mas um teste para a resiliência democrática do Rio de Janeiro. O estado, que já viu quase todos os seus ex-governadores vivos passarem pelo sistema prisional, enfrenta o dilema de repetir fórmulas que falharam ou consolidar um projeto de renovação real, focado na defesa das minorias e na transparência pública — pilares que Witzel, em sua primeira passagem, demonstrou ignorar solenemente.
Análise & Contexto
Takeaways:
- Wilson Witzel tenta converter sua queda política em uma narrativa de perseguição injusta.
- O ex-governador aposta no vácuo de lideranças à direita para encontrar um novo partido.
- A ironia direcionada a Eduardo Paes sinaliza o foco da sua estratégia de oposição.
- A viabilidade jurídica da candidatura ainda deve ser testada nos tribunais eleitorais.





