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Cultura como valor público: Mariana Mazzucato propõe virada econômica a partir da criatividade

Em Brasília, economista participou de agenda realizada pelo MinC com representantes de agências federais e demais Ministérios

JR Vital
JR Vital fev. 11, 2026

Em missão pelo Brasil para a pesquisa de campo sobre cultura, economia criativa e Carnaval, a economista e professora Mariana Mazzucato defendeu uma mudança profunda na forma como a cultura e a economia criativa são compreendidas e incorporadas às políticas públicas durante agenda realizada pelo Ministério da Cultura (MinC), em Brasília, na última segunda-feira (9).

Em encontros interministeriais, Mazzucato apresentou seu estudo sobre economia criativa e dialogou com gestores do setor público, privado e parceiros institucionais, reforçando a ideia de que a cultura não deve ser tratada como custo, mas como investimento estratégico para o desenvolvimento econômico, social e sustentável.

“Economia cultural e criativa também é sobre uma economia de ouvir. Trabalhar com, não trabalhar para”, afirmou a economista. Para ela, pensar a cultura apenas como um setor é uma limitação. “Uma das maneiras de ir além, é não pensar na cultura como um setor, mas como central para reforçarmos a economia, é primeiro pensar seu papel e reimaginar o que queremos como sociedade”, disse.

Ela destacou ainda a necessidade de superar métricas tradicionais e estáticas de avaliação econômica. “Precisamos mudar em direção a medidas dinâmicas. Mesmo com os números estáticos, a análise de custo-benefício é mal feita”, avaliou.

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Em Brasília, economista participou de agenda realizada pelo MinC com representantes de agências federais e demais Ministérios

Segundo a economista, se os limites dessas análises já são evidentes em áreas como meio ambiente, o desafio é ainda maior quando se trata da cultura, historicamente subvalorizada nas políticas econômicas.

O estudo apresentado por Mazzucato parte do diagnóstico de que vivemos uma era de crises múltiplas e inter-relacionadas, na qual o papel do Estado deixa de ser uma questão de “se” deve intervir, para se tornar uma discussão sobre “como” e “com quais objetivos”. Nesse contexto, a arte e a cultura — das artes visuais à música, do design às expressões populares — são apontadas como alicerces para reimaginar futuros alternativos, fortalecer a identidade cívica e mobilizar a ação coletiva.

“A arte e a cultura podem ser simultaneamente um meio e um fim: um objetivo da política econômica e, ao mesmo tempo, uma precondição para a transformação econômica”, defende. Para ela, trata-se de aplicar conceitos como valor público, bens comuns e economia pública para recolocar a cultura em um papel transversal. “A ideia é realmente usar essas noções para retomar o papel transversal da cultura em nossas economias — ou o papel que ela deveria ter”.

Mazzucato avalia que o debate central hoje passa por perguntas mais amplas sobre o modelo econômico. “O que é necessário para criar uma economia mais inclusiva, mais sustentável, com menos busca por renda e mais criação de valor? É realmente importante fazer essas perguntas maiores”, afirmou. Nesse sentido, a economista destacou a relevância de pensar a economia criativa a partir de dimensões como coesão social, saúde mental, redes, habilidades, identidade, perspectiva geracional e investimentos de longo prazo.

Foto: Victor Vec/ MinC
Foto: Victor Vec/ MinC

A agenda em Brasília incluiu diálogos com a Presidência da COP 30, os ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Meio Ambiente (MMA), da Gestão e da Inovação (MGI), da Fazenda e do Planejamento, além de instituições vinculadas ao MinC e parceiros públicos e privados. A proposta, segundo a economista, é reforçar a compreensão de que a cultura e a economia criativa atravessam áreas como meio ambiente, nova indústria e inovação, consolidando a política cultural como política de desenvolvimento.

O secretário-executivo do MinC, Márcio Tavares, reforçou essa visão ao afirmar que “cultura é direito”, destacando a democratização e a universalidade do acesso como princípios centrais. Para ele, a passagem de Mazzucato pelo Brasil representa uma contribuição estratégica para o desenho das políticas públicas culturais. “É uma provocação importante para o desenho das políticas que estamos fazendo aqui no Brasil. Tanto o Carnaval quanto outras iniciativas são nossos laboratórios, pelo tamanho da demanda e pelo tamanho do papel que a cultura ocupa”, afirmou.

Já a secretária de Economia Criativa da Pasta, Cláudia Leitão, enfatizou que a criatividade não é neutra e que seus efeitos dependem dos valores que a orientam. “A criatividade pode criar emancipação ou dependência, a depender dos valores da cultura”, afirmou. Segundo ela, quando associada apenas à dominação ou ao lucro, a criatividade aprofunda desigualdades; quando orientada por valores de soberania, promove emancipação.

Cláudia também destacou a centralidade da soberania cultural no desenvolvimento do país. “Se estamos falando de soberania, estamos falando de soberania cultural, do produto cultural brasileiro”, disse, ao defender a ampliação das indústrias criativas para além do audiovisual, incluindo áreas como design, arquitetura, urbanismo e outras expressões da criatividade brasileira. Para a secretária, garantir o direito à criatividade é garantir liberdade de repertório, de escolhas e de produção. “Sem isso, seremos apenas consumidores passivos de mercados exógenos, e não haverá soberania brasileira”, concluiu.

Missão

A missão internacional de pesquisa de campo sobre cultura, economia criativa e Carnaval, fruto da cooperação entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), da University College London (UCL), com cooperação técnica da UNESCO percorre as cidades do Rio de Janeiro, Brasília e Salvador. A iniciativa integra o esforço do Governo do Brasil de reposicionar a cultura como eixo estratégico do desenvolvimento nacional, do planejamento estatal e do fortalecimento das capacidades públicas.

Quem é Mariana Mazzucato

Mariana Mazzucato (PhD, CBE, FREcon) é professora de Economia da Inovação e de Valor Público na University College London (UCL), onde é Diretora Fundadora do UCL Institute for Innovation & Public Purpose (IIPP). Entre seus livros premiados estão: O Estado Empreendedor: desmascarando os mitos do setor público versus setor privado (2013), O Valor de Tudo: Produção e Apropriação na Economia Global (2018), Missão Economia: Um Guia Inovador para Mudar o Capitalismo (2021) e A Grande Falácia: Como a Indústria da Consultoria Enfraquece as Empresas, Infantiliza Governos e Distorce a Economia (2023).

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