Como será o impacto da política de securitização de Trump na ordem geoeconômica global

JR Vital - Diário Carioca
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JR Vital
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Editor e analista geopolítico
JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo...
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Donald Trump - RS/Fotos Públicas

Alexandre Ramos Coelho, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

A ameaça de Donald Trump de impor tarifas de 100% sobre importações dos países do BRICS reflete uma dinâmica de securitização da economia global e indica uma transição da era neoliberal, pautada na eficiência de mercado, para uma nova ordem geoeconômica.

A securitização da economia internacional representa o processo em que temas como tarifas comerciais e uso de moedas alternativas ao dólar passam a ser vistos como ameaças à segurança do Estado, justificando ações emergenciais e excepcionais.

Nesse modelo, instrumentos econômicos são empregados para proteger interesses nacionais e moldar relações geopolíticas. Foi o que se viu na crise de 2008, na pandemia de COVID-19 e nos recentes conflitos na Europa e no Oriente Médio, que evidenciaram vulnerabilidades globais e intensificaram o controle estatal sobre cadeias produtivas e sistemas financeiros.

Embora vise reforçar a hegemonia dos Estados Unidos (EUA) e a centralidade do dólar, essa estratégia enfrenta desafios. Um deles é a aceleração da desdolarização e a fragmentação do sistema financeiro internacional, que promove o uso de moedas locais e sistemas de pagamento alternativos.

Tais desenvolvimentos evidenciam os limites da coerção econômica em um mundo multipolar, onde atores como o BRICS buscam diversificar suas estratégias econômicas e fortalecer redes financeiras regionais.

Desse modo, a securitização da economia não só redefine prioridades estatais como contribui para uma reorganização global que desafia a posição dominante dos EUA.

Efeito bumerangue

Scott Bessent, secretário do Tesouro norte-americano, descreveu as tarifas como uma “arma sempre carregada” para proteger interesses estratégicos. No entanto, tarifas de 100% sobre bens importados do BRICS podem produzir efeitos negativos na economia americana, incluindo aumento nos custos de produtos importados e pressão inflacionária, reduzindo o poder de compra das famílias.

Para mitigar esses efeitos, o Federal Reserve poderia adotar políticas monetárias mais restritivas, resultando em elevação das taxas de juros, desaceleração do consumo e do investimento, e enfraquecimento de setores essenciais como tecnologia e manufatura.

Além disso, as tarifas poderiam provocar retaliações comerciais de parceiros estratégicos, como China e Índia, prejudicando o acesso a mercados importantes e desestabilizando cadeias globais de suprimentos.

No âmbito político, o aumento do custo de vida alienaria eleitores. No campo geopolítico, tais ações incentivariam o uso de alternativas ao dólar e a diversificação financeira. As tarifas propostas poderiam gerar um efeito bumerangue, prejudicando mais a economia americana do que fortalecendo sua posição global.

A ideia de uma moeda comum no BRICS, ou o uso das moedas locais para liquidar operações comerciais intra-BRICS, apresentada como resposta à hegemonia do dólar, enfrenta também desafios estruturais.

Diferenças econômicas e políticas entre os membros, como as rivalidades entre China e Índia e a limitada integração comercial no interior do bloco dificultam a coordenação necessária para esse projeto. Além disso, o comércio entre os países do BRICS é proporcionalmente menor do que com economias externas, reduzindo os incentivos para a implementação de uma moeda compartilhada.

A dependência global do dólar como moeda de reserva e de transações comerciais é mais um obstáculo. Mesmo liderando os esforços de diversificação monetária, a China mantém trilhões de dólares em reservas internacionais e continua a utilizá-los amplamente no comércio global. Apesar da retórica, o país adota postura mais cautelosa.

Sob uma perspectiva bilateral, porém, os acordos firmados entre a China e outros países, como os swaps monetários recentes entre os bancos centrais da China, Japão e União Europeia, refletem uma estratégia gradual de diversificação econômica.

Apesar das dificuldades inerentes a esse processo, o fortalecimento do uso de moedas locais e a expansão desses acordos indica esforços cautelosos para reduzir a dependência do dólar, sem provocar instabilidade no sistema financeiro global.

Tensões com aliados

A política tarifária adotada por Donald Trump exemplifica a instrumentalização ou a weaponização – uso como arma – da interdependência econômica, na qual redes globais de comércio e finanças são transformadas em instrumentos de coerção geopolítica. Ao impor sanções e tarifas aos países do BRICS, os EUA buscam consolidar sua hegemonia econômica e política.

Essa abordagem, porém, tem estimulado esforços de diversificação monetária e fortalecimento de sistemas alternativos, como o CIPS da China, que presta serviços similares ao da SWIFT. Isso desafia o domínio financeiro americano ao conectar bancos internacionais, registrando e liquidando operações comerciais em renminbi – a moeda chinesa – de maneira independente.

Essa estratégia de utilização coercitiva das redes econômicas não se limita aos rivais geopolíticos e gera tensões até mesmo com aliados estratégicos, como os Países Baixos e a Alemanha. Exemplo disso foi a pressão americana para restringir exportações de tecnologia de ponta para a China, como maquinário de produção de chips, e banir a companhia chinesa Huawei de infraestruturas de telecomunicações críticas.

Embora a weaponização da interdependência possa oferecer vantagens geopolíticas no curto prazo, seus efeitos de médio e longo prazo podem ser contraproducentes. Além de comprometer alianças estratégicas, incentiva a busca de alternativas à hegemonia dos EUA, ameaçando sua posição como líder global.

A centralização das redes comerciais e financeiras, originalmente impulsionada por interesses de mercado, agora fornece aos Estados ferramentas eficazes de controle. Contudo, essa mesma centralização torna evidente que o uso excessivo dessas redes para fins coercitivos pode acelerar a transição para uma ordem global mais multipolar, desafiando os próprios alicerces da liderança econômica americana.

A política de tarifas punitivas de Trump simboliza a transição para uma ordem geoeconômica centrada na segurança nacional e no uso estratégico da economia para fins geopolíticos.

Embora busque proteger a hegemonia americana e o papel central do dólar, a estratégia pode ter efeitos contrários, como acelerar a desdolarização e fragmentar o sistema financeiro global.

Em um contexto multipolar, a eficácia dessa coerção econômica é limitada, com outros países investindo em alternativas como sistemas de pagamento locais e redes financeiras regionais, promovendo a construção de uma economia global mais equilibrada e resiliente.

Alexandre Ramos Coelho, Professor na Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.