Quando impérios se movem, as periferias reagem. A leitura é de Erick Langer, professor de História da Universidade de Georgetown, ao avaliar o pós-Maduro e o alcance regional de Donald Trump. Para o acadêmico, a operação que levou ao sequestro do presidente venezuelano não é um ponto fora da curva, mas um prelúdio: a estratégia americana seguiria orientada à captura de ativos — sobretudo petróleo — ainda que o custo social seja “mais do mesmo sofrimento para o povo venezuelano”.
Langer sustenta que o interesse de Washington independe do regime e pode, inclusive, reconfigurar preferências internas na Venezuela. Em vez de líderes com capital popular e margem de autonomia, a Casa Branca tenderia a apostar em quadros mais dóceis à agenda de abertura e controle. O critério não seria a democracia; seria a governabilidade para fora.
Do “quintal” à colônia econômica
A história latino-americana conhece esse roteiro. Da Doutrina Monroe às intervenções do século XX, a promessa de estabilidade costuma esconder a lógica do extrativismo. Langer afirma que o projeto contemporâneo atualiza o velho script: transformar países em plataformas de produção para interesses externos, com verniz institucional.
“Interferência externa raramente convence; quase sempre mobiliza.”
Brasil como contrapeso
É nesse ponto que o diagnóstico toca o Brasil. Segundo Langer, tentativas de interferência eleitoral por parte de Trump tenderiam a produzir o efeito inverso do desejado. Ao acionar o sentimento nacional, a ingerência externa vira munição simbólica para forças que se apresentam como defensoras da soberania. O resultado provável, avalia, é o enfraquecimento da direita alinhada a Washington.
O professor cita exemplos recentes de apoio financeiro e diplomático norte-americano a governos ideologicamente próximos — como o caso argentino — para ilustrar o risco de reação doméstica. No Brasil, diz, a escala importa: o país seria “grande o suficiente” para impor limites e dizer “chega”.
Calma como estratégia
Na avaliação do historiador, a postura contida do governo brasileiro diante do episódio venezuelano opera como ativo político. Ao evitar o espetáculo e a escalada retórica, o Brasil preserva margem de manobra e sustenta uma imagem de potência moderadora. Se essa linha se mantiver, conclui Langer, o nacionalismo seguirá como força de contenção contra investidas externas — e não como combustível para aventuras.





