Mauro Cid expõe apoio do agronegócio aos atos golpistas

Ex-ajudante de Jair Bolsonaro revela ao STF que empresários do agronegócio financiaram acampamentos golpistas em frente a quartéis
O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, no Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, no Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Brasília, Brasil – 9 de junho de 2025 – O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, afirmou em depoimento ao Supremo Tribunal Federal que representantes do agronegócio financiaram diretamente os acampamentos golpistas montados em frente a quartéis após as eleições de 2022.

Cid também declarou que recebeu dinheiro em espécie do general Walter Braga Netto, que teria sido destinado à manutenção da estrutura logística dos protestos antidemocráticos.

A fala, parte do primeiro interrogatório no processo sobre a tentativa de golpe de Estado, implica militares de alta patente, empresários ruralistas e dirigentes do PL (Partido Liberal) no financiamento e articulação das ações golpistas que culminaram nos ataques de 8 de janeiro.


Braga Netto entregou caixa com dinheiro no Alvorada

Durante o depoimento, Mauro Cid detalhou o encontro com Braga Netto no Palácio da Alvorada, onde recebeu uma caixa de vinho recheada com dinheiro vivo. O montante, segundo ele, foi entregue ao major Rafael de Oliveira, conhecido como Kid Preto, que atuava como articulador direto dos acampamentos. Cid estima que o valor não chegou a R$ 100 mil, mas reconhece que não contabilizou a quantia exata.

A entrega, segundo Cid, ocorreu após sua tentativa frustrada de obter recursos com um coronel que operava como tesoureiro informal do PL, o partido de Bolsonaro. Diante da recusa, Braga Netto teria assumido a função de repassador dos fundos.


Empresários ruralistas bancaram a logística do golpe

Indagado pela Justiça sobre a origem dos recursos, Cid foi direto: “Na época, disseram que era do pessoal do agronegócio.” A afirmação confirma suspeitas antigas do STF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) de que empresários ligados ao bolsonarismo ruralista financiaram a permanência de centenas de pessoas nos acampamentos, incluindo transporte interestadual, alimentação e equipamentos de comunicação.

O envolvimento do agronegócio expõe um elo direto entre grupos econômicos poderosos e a tentativa de ruptura institucional. Grandes produtores de soja, carne e algodão estiveram entre os principais financiadores da campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e, segundo fontes do inquérito, teriam mantido o apoio após a derrota eleitoral, passando a sustentar as mobilizações golpistas.


Cúpula bolsonarista será interrogada pelo STF

Mauro Cid é o primeiro dos oito integrantes do “núcleo crucial” da trama golpista a prestar depoimento presencial no Supremo. Ele é apontado pela PGR como elo de confiança entre Bolsonaro e os conspiradores, atuando como mensageiro de ordens estratégicas e articulador de recursos logísticos.

Após Cid, o STF ouvirá, em ordem alfabética, os demais acusados:

  • Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin;
  • Almir Garnier, almirante e ex-comandante da Marinha;
  • Anderson Torres, ex-ministro da Justiça;
  • Augusto Heleno, general da reserva;
  • Jair Bolsonaro, ex-presidente da República;
  • Paulo Sérgio Nogueira, ex-comandante do Exército;
  • Walter Braga Netto, general e ex-ministro da Defesa.

O tribunal busca aprofundar a estruturação hierárquica e logística do plano golpista, que teria contado com financiamento empresarial, apoio militar e cobertura partidária.


Acampamentos foram articulados com aval militar

Mauro Cid declarou ainda que foi procurado por bolsonaristas interessados em montar acampamentos em frente aos quartéis e que, diante da movimentação, buscou orientações com Braga Netto. O general, segundo ele, orientou que procurasse o “pessoal do partido”, mas também assumiu diretamente a tarefa de prover recursos quando percebeu a inação dos canais formais.

A partir desse ponto, os acampamentos passaram a ser abastecidos com infraestrutura de campanha, uso de ônibus fretados e material de propaganda golpista, o que demonstra uma operação organizada e com fluxo constante de recursos.


O CARIOCA ESCLARECE

Por que a fala de Mauro Cid é considerada decisiva pelo STF?
Porque ele era o principal assessor militar de Jair Bolsonaro e teve acesso direto às ordens, recursos e encontros entre os conspiradores. Sua delação compromete diretamente a cadeia de comando e revela a existência de um esquema de financiamento golpista.

O que significa o envolvimento do agronegócio?
Significa que a tentativa de golpe não foi apenas obra de fanáticos, mas contou com o apoio financeiro de setores empresariais poderosos, que atuaram para manter seus interesses econômicos num eventual regime autoritário. Isso pode abrir investigações sobre doações eleitorais ilegais, lavagem de dinheiro e abuso de poder econômico.

Por que Braga Netto entregaria dinheiro pessoalmente?
Porque o uso de canais formais poderia deixar rastros. A entrega em espécie, dentro de uma caixa de vinho, indica tentativa deliberada de ocultar a origem dos recursos. A presença de um general da ativa nesse tipo de operação pode configurar crime militar e civil, além de golpe de Estado.

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