Brasília amanheceu com um novo endereço — inexistente, mas ruidosamente simbólico. Quem buscava a sede da Polícia Federal no Google Maps passou a encontrar, nas imediações, um ponto batizado de “Recanto do Broxa Soluçante”. A denominação, criada por usuários, foi associada à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e se espalhou com a eficiência típica do ecossistema digital: automática, acrítica e viral.
O local fictício chegou a ser classificado como “albergue” e apareceu também em aplicativos de transporte que utilizam a base do Google para navegação. Um erro cartográfico? Não exatamente. Trata-se de uma intervenção digital deliberada, dessas que misturam humor agressivo, disputa política e a sensação de impunidade algorítmica.
De Rabelais ao meme político
A zombaria pública de figuras de poder não é novidade. De François Rabelais ridicularizando reis à charge política do século XIX, o riso sempre foi arma contra a autoridade. A diferença é que, no século XXI, a caricatura ganhou GPS. O escárnio não fica mais na praça ou no jornal: ele se fixa no mapa, literal e simbolicamente.
“Quando o deboche vira ponto de referência, a tecnologia deixa de ser neutra e passa a narrar o conflito.”
Onde fica, afinal, a prisão
O detalhe factual desmonta a própria piada: o ponto marcado está a quilômetros de distância do local real onde Bolsonaro cumpre pena. A Superintendência da Polícia Federal, onde o ex-presidente está custodiado, fica na Asa Sul, enquanto a sede administrativa da PF se localiza na Asa Norte. O “recanto” não existe no espaço físico — apenas no imaginário digital.
Algoritmos sem pudor
O episódio chamou atenção não só pelo teor ofensivo, mas pela facilidade com que uma alteração feita por usuários comuns se propaga por sistemas amplamente utilizados. A lógica da confiança automática — “se está no mapa, deve ser verdade” — revela sua face mais frágil quando aplicada a disputas políticas e simbólicas.
O silêncio barulhento da cela
Enquanto o mapa fervia, outro ruído ganhava os autos. A defesa de Bolsonaro reclamou formalmente do barulho do ar-condicionado na sala onde ele está preso, alegando prejuízo ao repouso e à saúde. O ministro Alexandre de Moraes solicitou esclarecimentos à Polícia Federal e deu prazo para manifestação.
O contraste é inevitável: do desconforto acústico real ao deboche digital amplificado, a prisão do ex-presidente tornou-se também um campo de batalha simbólico — onde até o silêncio faz barulho.

