A ironia, essa força gravitacional que coloca a hipocrisia em seu devido lugar, acaba de atingir o Edifício Matarazzo com a precisão de um algoritmo de última geração. Janaina Reis Miron, irmã do prefeito Ricardo Nunes, foi presa nesta quinta-feira (15) graças ao Smart Sampa — o onipresente sistema de câmeras de reconhecimento facial que Nunes tanto alardeia como a salvação da segurança pública.
Enquanto buscava atendimento em uma UBS na Zona Sul, a “primeira-irmã” foi identificada pela inteligência artificial como a foragida que é. Condenada por crimes que variam de embriaguez ao volante a agressões brutais contra o próprio filho, Janaina descobriu que o “Grande Irmão” da prefeitura não tem laços de sangue quando o assunto é cumprir mandado de prisão.
O histórico de Janaina é um compêndio de privilégios mal disfarçados e violência doméstica. Em 2022, ela foi flagrada ziguezagueando por uma rodovia, recusando o bafômetro e usando o clássico repertório do “você sabe com quem está falando?”, alegando que o marido era capitão da PM e que os agentes deveriam “prender ladrão” em vez de incomodar uma “mãe de família”. O conceito de “mãe de família” de Janaina, entretanto, inclui condenações por morder o filho, bater sua cabeça contra a parede e arremessar objetos. O Smart Sampa, que Nunes defende como arma contra o crime, acabou por expor as vísceras de uma linhagem que, no escurinho das delegacias, tentava se manter imune ao braço longo da lei.
O reconhecimento facial é o espelho que Nunes não queria encarar?
Será que o prefeito Ricardo Nunes continuará usando o Smart Sampa em suas propagandas agora que o sistema colocou as algemas em sua própria irmã? A prisão de Janaina é o triunfo do código sobre o sobrenome. Ela, que ameaçou prejudicar policiais e soltar cães contra a guarnição, foi “mordida” pela tecnologia do irmão. Nunes, que frequentemente flerta com discursos de ordem, agora se vê diante de uma realidade doméstica que é o avesso de sua retórica. A “segurança” que ele vende para a cidade finalmente chegou à sua árvore genealógica, provando que, para o Smart Sampa, o rosto de um foragido é apenas um dado, independentemente de quem o convidou para a ceia de Natal.
A Capivara da Família: O Prontuário de Janaina Reis Miron
| Crime Tipificado | Detalhes da Ocorrência | Data da Condenação | Status Atual |
| Lesão Corporal | Agressão ao filho (mordidas, pancadas na cabeça). | Abril de 2024 | Mandado de Prisão Cumprido. |
| Embriaguez ao Volante | Direção perigosa e recusa de bafômetro em Botucatu. | Julho de 2025 | Mandado de Prisão Cumprido. |
| Desacato / Ameaça | Ameaçou soltar cães contra PMs e usar cargo do marido. | Julho de 2025 | Mandado de Prisão Cumprido. |
| Fuga da Justiça | Considerada foragida até a detecção pelo Smart Sampa. | — | Presa na Zona Sul. |
A análise é ácida e inevitável: Ricardo Nunes criou um monstro tecnológico que, por um lapso de honestidade binária, decidiu morder o criador. O sistema que deveria “limpar a cidade” começou fazendo uma faxina no álbum de fotos do prefeito. Janaina, a mulher que acreditava estar acima da lei por ser “esposa de capitão” e “irmã de prefeito”, agora terá tempo para refletir na carceragem sobre a eficiência do videomonitoramento. No fim, o Smart Sampa serviu para algo útil: mostrar que, diante da câmera, a elite também é feita de pixels e mandados em aberto.

