A ironia, essa deusa implacável do destino, acaba de reservar a Jair Bolsonaro um aposento com história. A cela que o ex-presidente agora ocupa na Papudinha não estava vazia; ela pertencia a Jéssica Castro de Carvalho, a “Advogata” do tráfico. Presa desde novembro de 2025 após ser flagrada com um arsenal e quilos de skunk em seu carro de luxo, a influenciadora e especialista em Lei de Drogas — que namora um dos líderes da facção Comboio do Cão — foi gentilmente movida para a cela ao lado para dar lugar ao “Mito”. Bolsonaro, que sempre pregou a separação rígida entre “cidadãos de bem” e criminosos, agora divide o mesmo corredor, o mesmo ar e o mesmo passado imobiliário com a logística do crime brasiliense.
A transferência, oficializada nesta quinta-feira (15), revela que o 19º Batalhão da PMDF se tornou um verdadeiro cluster de celebridades do Judiciário. Enquanto Bolsonaro se acomoda nos 65 metros quadrados deixados pela “Advogata”, seus antigos braços direitos, Anderson Torres e Silvinei Vasques, observam a movimentação da cela vizinha. Silvinei, o ex-chefe da PRF que tentou fugir para o Paraguai após violar a tornozeleira, e Torres, o guardião da minuta do golpe, formam agora o comitê de boas-vindas do ex-presidente. É o encontro final de um projeto de poder que começou no Planalto e terminou em um batalhão reformado, onde o luxo da Sala de Estado-Maior tenta mascarar o fracasso retumbante de quem prometeu “acabar com a mamata”.
O “Capitão” se sente em casa na suíte deixada pelo Comboio do Cão?
Será que Bolsonaro, ao cruzar o limite da cela onde Jéssica Castro exibia suas especializações em direito penal, percebeu que a linha entre a política e a marginalidade se tornou invisível sob sua gestão? A “Advogata”, com suas sete especializações e paixão por fisiculturismo, compartilha com o novo inquilino o gosto pelas armas de grosso calibre e a habilidade de vender uma imagem imaculada nas redes sociais enquanto a realidade é guardada em tabletes e munições. Na Papudinha, o discurso de lei e ordem se dissolve na convivência forçada: o ex-presidente agora habita o vácuo deixado por quem servia ao tráfico, provando que, no xadrez de Alexandre de Moraes, todas as peças que atentam contra o Estado acabam no mesmo tabuleiro — e, muitas vezes, na mesma cama.
O Condomínio da Papudinha: Quem é Quem no 19º BPM
| Inquilino | Ocupação Anterior | Motivo da Estadia | Status da Unidade |
| Jair Bolsonaro | Ex-Presidente | Condenado a 27 anos (Golpe/Org. Crim.) | Suíte VIP (ex-Advogata). |
| Jéssica Castro | Advogada/Influencer | Tráfico de armas e drogas (CDC) | Remanejada para a cela ao lado. |
| Anderson Torres | Ministro da Justiça | Tentativa de golpe de Estado | Vizinho de parede. |
| Silvinei Vasques | Diretor da PRF | Plano de golpe e fuga internacional | Divide unidade com Torres. |
A análise é ácida, mas o fato é inconteste: a “Papudinha” virou a representação física da promiscuidade que o bolsonarismo trouxe às instituições. Ver o ex-chefe da nação herdando o espaço de uma operadora do crime organizado é a metáfora perfeita para o ocaso de um governo que flertou com as milícias e terminou nos braços do garantismo que tanto criticou. Bolsonaro agora dorme onde Jéssica sonhava com a liberdade; resta saber se, no silêncio da noite, ele ouvirá os conselhos dos vizinhos Torres e Silvinei ou se focará apenas no barulho da esteira que Moraes lhe concedeu para não pirar no deserto digital.
