O arquivo, esse juiz silencioso e implacável, acaba de condenar Jair Bolsonaro à pior das penas: o ridículo. Enquanto o ex-presidente desfaz as malas na cela de 65 metros quadrados que herdou da “Advogata” no 19º Batalhão da PM, as redes sociais ardem com o resgate de um vídeo de abril de 2017. Na gravação, o então deputado federal, rindo com a arrogância de quem se julgava intocável, dirigia-se aos petistas Carlos Zarattini e Maria do Rosário com um vaticínio que hoje soa como profecia autorreferencial: “A Papuda lhe espera. Boa estadia lá, valeu? Um forte abraço”. Pois bem, o abraço agora é das grades do complexo brasiliense, e a “boa estadia” foi assinada com caneta de ouro por Alexandre de Moraes.
A valentia de cercadinho, que se alimentava de lives e ataques coordenados, parece ter evaporado no trajeto entre a Superintendência da PF e o Complexo da Papuda. O homem que fazia piada com a dignidade alheia e sugeria que presos deveriam “deixar cair o sabonete” — uma alusão vulgar e homofóbica à violência carcerária — agora se vê do outro lado da fechadura. A ironia é tão densa que poderia ser cortada com a mesma navalha que o Diário Carioca usa para expor a hipocrisia imperialista. Bolsonaro, que sempre pregou o rigor máximo para os outros, agora se agarra a barras de apoio na cama e solicita fisioterapia noturna para conseguir conciliar o sono no endereço que ele mesmo transformou em meme.
O riso de 2017 ecoa como piada de mau gosto no corredor da Papudinha?
Será que ao caminhar pelo pátio de sol exclusivo, Bolsonaro consegue ouvir o eco de sua própria voz debochando de quem ele desejava ver atrás das grades? O “Papuda lhe espera” deixou de ser um slogan de ataque para se tornar o roteiro de seu ocaso. A internet, que ele próprio ajudou a transformar em um campo de batalha, não perdoa: os memes agora substituem as “motociatas”, e o silêncio do Wi-Fi cortado por Moraes é o som da justiça sendo feita sobre o pedestal de barro do bolsonarismo. A valentia, pelo que se vê, era apenas um filtro de vídeo que não resistiu ao peso de uma sentença de 27 anos.
O Reencontro com o Próprio Verbo: Bolsonaro vs. Bolsonaro
| Ano | Ação / Declaração | Alvo | Onde está agora? |
| 2017 | “A Papuda lhe espera. Boa estadia!” | Maria do Rosário / Opositores | No plenário da Câmara. |
| 2021 | “Preso, morto ou vitória.” | Sistema Judiciário / STF | No Palácio do Planalto. |
| 2025 | Captura após tentativa de golpe. | Instituições Democráticas | Carceragem da PF. |
| 2026 | Transferência para a Papudinha. | Própria consciência / Memória | Cela VIP de 65m². |
A análise é ácida e incontornável: Jair Bolsonaro provou do próprio veneno. O político que construiu sua carreira em cima do ódio ao próximo e da celebração do cárcere para os inimigos, agora descobre que a Papuda é um destino democrático — ela não escolhe ideologia, apenas crimes. Se em 2017 ele oferecia um “forte abraço” para quem ia para a prisão, em 2026 ele recebe o abraço frio de um sistema que ele tentou corromper. A “valentia” ficou no YouTube; na vida real, restou apenas a esteira ergométrica e a vigilância de Moraes.

