O que se desenhava como uma sucessão dinástica controlada nos laboratórios do Partido Liberal transformou-se em uma guerra fria de baixa intensidade, mas de alto impacto político. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro comunicou oficialmente ao ex-presidente Jair Bolsonaro que não pretende mover um milímetro de seu capital político para alavancar a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. A decisão, que rompe a fachada de unidade inabalável do clã, não é apenas um capricho pessoal; é o resultado de uma série de insultos e disputas de ego que revelam a fragilidade institucional da extrema-direita brasileira em 2026.
O estopim da crise teria sido uma mensagem hostil enviada por Flávio, na qual o senador insinuava que a madrasta estaria sabotando deliberadamente suas pretensões ao Planalto. Sentindo-se insultada e deslegitimizada, Michelle optou pelo silêncio estratégico — uma forma de “greve de braços cruzados” que retira de Flávio o acesso ao eleitorado feminino e conservador, segmento onde ela detém hegemonia. Ao se afastar da presidência do PL Mulher em dezembro de 2025, alegando questões médicas, Michelle já sinalizava que não seria o cabo eleitoral de um projeto que a exclui das decisões centrais.
O Xadrez dos Palanques Estaduais
A rebeldia de Michelle não se limita ao veto ao enteado. Ela tem operado como uma força autônoma, atropelando acordos costurados por Valdemar Costa Neto. Em Santa Catarina, ao declarar apoio à deputada Caroline de Toni para o Senado, Michelle entrou em rota de colisão direta com o projeto que visava lançar Carlos Bolsonaro no estado ou apoiar a reeleição de Esperidião Amin. O resultado é o caos partidário: Caroline de Toni já sinaliza a saída do PL, fragmentando a base bolsonarista no estado mais fiel ao ex-presidente.
Essa dinâmica de “guerrilha interna” repete-se em outros estados-chave:
Análise & Contexto
- Ceará: Michelle isolou o grupo ao criticar alianças com Ciro Gomes, preferindo o nome de Eduardo Girão.
- São Paulo: O embate é contra Eduardo Bolsonaro. Enquanto Michelle defende Rosana Valle para o Senado, o “filho 03” articula outros nomes, gerando uma bicefalia que confunde a militância e enfraquece a legenda.
A Morte da Unidade Estética
A postura de Michelle Bolsonaro em 2026 enterra a estética da “família cristã unida” que foi o pilar da campanha de 2022. O que se vê agora é uma disputa por espólios políticos. A ex-primeira-dama entendeu que seu nome possui valor de mercado independente e não aceita mais o papel de coadjuvante nos delírios sucessórios dos filhos do marido. Para o campo progressista, essa implosão interna é um indicador de que a extrema-direita, sem o controle centralizado da caneta presidencial, devora a si mesma em busca de sobrevivência individual.
Se o pedido de desculpas de Flávio não vier — ou se não for acompanhado de concessões reais de poder dentro do partido — o senador terá que enfrentar a máquina petista sem o principal trunfo de comunicação de sua família. O isolamento de Flávio dentro da própria casa pode ser o prenúncio da derrota de um modelo de política baseado no nepotismo e na agressividade.
Takeaways:
- Michelle Bolsonaro rompe com Flávio após se sentir insultada por mensagens diretas do senador.
- A ex-primeira-dama atua de forma independente em estados como SC, SP e CE, desafiando a cúpula do PL.
- Caroline de Toni deve deixar o PL após interferências cruzadas entre Michelle e Valdemar Costa Neto.
- A ausência de Michelle na campanha presidencial retira de Flávio o diálogo com o eleitorado feminino conservador.
Fatos-chave:
- Motivo do rompimento: Mensagem de Flávio insinuando sabotagem por parte de Michelle.
- Condição para retorno: Pedido de desculpas formal de Flávio Bolsonaro.
- Situação partidária: Michelle afastada do PL Mulher desde dezembro de 2025.
- Conflito em SC: Michelle apoia Caroline de Toni; Clã Bolsonaro prefere Carlos Bolsonaro ou Amin.
- Conflito em SP: Michelle (Rosana Valle) vs. Eduardo Bolsonaro (outros nomes).





