31 de maio de 2025, Brasília (DF) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi oficialmente convidado pelo governo do Canadá para participar da 51ª Cúpula de Líderes do G7, marcada para os dias 16 e 17 de junho, na remota cidade de Kananaskis, província de Alberta. A correspondência diplomática, assinada pelo novo primeiro-ministro canadense Mark Carney, foi entregue nesta sexta-feira (30) pela Embaixada do Canadá no Brasil, em um gesto que sinaliza a continuidade dos esforços para reinserir o Brasil nos grandes fóruns globais.
Apesar do convite estar nas mãos do Palácio do Planalto, Lula ainda não confirmou presença. Internamente, há ponderações sobre o contexto político da reunião, que marcará também o retorno de Donald Trump à cena diplomática internacional — desta vez como presidente reeleito dos Estados Unidos.
G7: palco de tensões diplomáticas
O grupo das sete maiores potências industriais do mundo — Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido — se reúne anualmente para coordenar políticas econômicas e de segurança global. Ao longo dos anos, o G7 se tornou também uma arena de tensões geopolíticas e disputas de hegemonia, cada vez mais marcadas pelo antagonismo entre democracias liberais e projetos autoritários.
Luiz Inácio Lula da Silva, que participou da cúpula em 2023, na Itália, elevou o tom ao criticar a monopolização da inteligência artificial por grandes corporações tecnológicas do Norte Global e defendeu uma redistribuição justa das riquezas produzidas pelas inovações digitais.
Dessa vez, porém, a configuração do encontro é mais espinhosa: Donald Trump, notório por sua hostilidade à governança multilateral e por insultos anteriores ao Brasil durante sua gestão anterior, estará presente como protagonista da nova diplomacia isolacionista norte-americana.
Presença de Trump cria impasse diplomático
Segundo fontes ouvidas pela TV Globo, Lula teria sinalizado a intenção de comparecer ao G7, embora integrantes da diplomacia brasileira avaliem com cautela o impacto de um eventual encontro direto com Trump. O republicano voltou ao poder impulsionado por uma onda reacionária e populista, que inspira segmentos da extrema-direita no Brasil, inclusive aliados de Jair Bolsonaro ainda ativos nos bastidores de Brasília.
Um encontro entre Lula e Trump, portanto, extrapola o protocolo e adquire contornos simbólicos: de um lado, o mandatário brasileiro, que aposta em uma integração global baseada na multipolaridade; do outro, o chefe da maior potência militar do planeta, que defende a primazia unilateral dos Estados Unidos e a deslegitimação de instituições internacionais como a ONU.
Zelensky e o impasse da guerra na Ucrânia
Outro fator que torna a edição canadense do G7 particularmente sensível é a provável presença de Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia. O governo canadense, um dos mais firmes apoiadores de Kiev desde a invasão russa iniciada em 2022, pretende usar a cúpula como plataforma para angariar mais apoio militar e diplomático ao país do leste europeu.
A posição brasileira tem sido de neutralidade estratégica, com Lula defendendo reiteradamente a formação de um “clube da paz” para negociar o fim da guerra, o que já rendeu críticas de setores mais belicistas do Ocidente. Em março deste ano, o presidente brasileiro recusou um convite de Zelensky para visitar Kiev, reiterando que não tomará partido em guerras que ampliem a divisão do mundo.
O Canadá e a escolha de Kananaskis
O local escolhido para sediar a reunião deste ano é simbólico: a minúscula Kananaskis, região de montanhas isoladas no oeste do Canadá, foi palco de outra cúpula do G7 em 2002, também marcada por tensões geopolíticas — na ocasião, decorrentes do pós-11 de Setembro. A escolha do cenário reforça o tom defensivo do encontro, em meio a um cenário global de recrudescimento autoritário, guerras em curso e ataques aos direitos civis e ambientais.
Brasil tenta afirmar voz própria em fórum dominado pelo Norte
Caso confirme sua presença, Lula se juntará a outros países convidados fora do núcleo original do G7 — geralmente nações do Sul Global estratégicas para o equilíbrio geoeconômico. Em 2023, além do Brasil, participaram Índia, Indonésia, África do Sul e Coreia do Sul.
No entanto, o modelo de participação periférica é alvo de críticas por reforçar a assimetria estrutural do grupo, que ainda dita a agenda mundial sem representar de forma equitativa as maiorias globais. O Itamaraty, sob comando do chanceler Mauro Vieira, tem buscado ampliar o protagonismo brasileiro no G20, BRICS e na ONU, contrapondo-se à lógica exclusivista do G7.
O G7 e a batalha pela narrativa global
A presença de Donald Trump, Volodymyr Zelensky e, possivelmente, de Luiz Inácio Lula da Silva, tornará a Cúpula de Kananaskis um palco privilegiado da guerra de narrativas entre diferentes visões de mundo. De um lado, a tentativa ocidental de consolidar uma coalizão contra o autoritarismo — ainda que flertando com seus próprios mecanismos de exceção. De outro, os países do Sul Global que reivindicam autonomia, equilíbrio climático, justiça social e o fim da subordinação econômica.
Ainda que o Brasil participe apenas como convidado, sua presença poderá influenciar os rumos dos debates sobre clima, IA, tributação global, reformas da governança internacional e até mesmo o futuro da guerra na Ucrânia.
Resta saber se Lula aceitará o convite — e a armadilha diplomática que ele embute.

