Em meio às explosões ainda recentes em Caracas, Javier Milei escolheu as redes sociais como trincheira. O presidente argentino não apenas celebrou a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa por forças dos Estados Unidos como aproveitou o momento para atacar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A frase-slogan — “Viva la libertad, carajo!” — serviu menos como comentário e mais como provocação calculada.
A política transformada em espetáculo
O vídeo divulgado por Milei resgata trechos de seu discurso na última cúpula do Mercosul, em dezembro, quando classificou o governo venezuelano como “ditadura atroz” e saudou a pressão de Donald Trump sobre Caracas. A edição destaca reações de Lula, numa montagem que busca colar o presidente brasileiro à imagem de Maduro, como se divergência diplomática fosse cumplicidade ideológica.
Não há surpresa na estratégia. Milei governa sob a lógica do choque permanente, em que a política externa vira extensão da guerra cultural doméstica. O ataque à Venezuela forneceu o cenário perfeito para reafirmar alinhamento automático com Washington e, ao mesmo tempo, tensionar a relação com Brasília.
“Quando a diplomacia vira meme, a soberania vira figurante.”
Lula, Malvinas e a memória incômoda
Do lado brasileiro, a resposta anterior de Lula seguia outro registro. O presidente havia classificado uma intervenção militar na Venezuela como “catástrofe humanitária” e lembrado que a presença militar de potências extrarregionais remete aos piores fantasmas do continente. Ao citar a Guerra das Malvinas, Lula acionou um trauma argentino ainda sensível — detalhe que ajuda a explicar a virulência da reação de Milei.
A diferença entre os dois discursos é menos sobre Maduro e mais sobre o papel da América do Sul no mundo. Para Lula, a região deve preservar-se como zona de paz e resolver crises pela via diplomática. Para Milei, a intervenção estrangeira é aceitável quando serve à sua narrativa de “libertação”.
De Bolívar a Orwell
Há um eco histórico difícil de ignorar. Desde Simón Bolívar, a América Latina oscila entre projetos de autonomia e momentos de submissão explícita a potências externas. Milei, ao aplaudir o sequestro de um chefe de Estado estrangeiro, reencena uma inversão orwelliana: a soberania vira obstáculo, e a força externa passa a ser celebrada como virtude moral.
A imagem final do vídeo — Lula e Maduro abraçados, acompanhados do grito libertário — sintetiza a operação simbólica. Não se trata de informar, mas de marcar inimigos. Em um continente acostumado a pagar caro por intervenções e alinhamentos acríticos, o espetáculo retórico pode render aplausos imediatos. A conta, como sempre, chega depois.





