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Operação Hawkeye: A persistência da bota americana sobre o solo sírio

Sob o pretexto de retaliação e segurança global, Washington desencadeia nova ofensiva em larga escala em território sírio, expondo as fragilidades da nova governança em Damasco e a perenidade do intervencionismo.

Por JR Vital Analista Geopolítico

OS FATOS:

  • O CENTCOM lançou ataques massivos contra o Estado Islâmico em diversas regiões da Síria neste sábado (10).
  • A ofensiva é uma resposta ao atentado de 13 de dezembro em Palmira, que vitimou dois soldados americanos e um intérprete.
  • Cerca de mil militares dos EUA permanecem estacionados na Síria, operando agora sob um pacto de cooperação com o governo Ahmed al-Sharaa.

A Doutrina da Retaliação e o Xadrez de Damasco

A Operação Hawkeye não é apenas um movimento tático de contra-insurgência; é a reiteração da hegemonia militar americana em um cenário pós-Assad que ainda não encontrou seu equilíbrio soberano. Ao lançar bombardeios em “larga escala” em resposta à tragédia de Palmira, os Estados Unidos sinalizam que a queda do antigo regime em 2024 não alterou a lógica da ocupação. A Síria, outrora um bastião de resistência árabe, agora se vê na complexa posição de hospedar as forças de Washington sob o verniz de uma cooperação necessária para extirpar o câncer do Estado Islâmico.

Historicamente, o território sírio tem sido o laboratório das grandes potências. Se no século XX a disputa era por influência ideológica, o século XXI revela uma sanha mais pragmática: o controle de rotas estratégicas e a contenção de fluxos que possam ameaçar a estabilidade energética do Ocidente. O fato de o autor do atentado de dezembro ser um ex-integrante das forças de segurança sírias demonstra que o Estado Islâmico não é apenas uma ameaça externa, mas um vírus que se infiltra nas estruturas porosas de uma nação em reconstrução, servindo de justificativa perpétua para a presença da bota estrangeira.

Dinâmica de Poder na Síria Pós-Revolucionária

EntidadePapel no Conflito AtualRelação com WashingtonInteresse Estratégico
EUA (CENTCOM)Força de Intervenção/AéreaHegemonia ativaEstabilidade regional e contenção
Governo Al-SharaaCooperação e Soberania LimitadaAliado pragmáticoLegitimação internacional
Estado IslâmicoInsurgência e Células AdormecidasInimigo ExistencialCaos e reconquista territorial
Coalizão de Ex-rebeldesSegurança TerrestreFinanciada/TreinadaConsolidação do novo regime

O Labirinto de Damasco: Entre a Ordem e a Ocupação

A visita do presidente Ahmed al-Sharaa à Casa Branca no final de 2025 selou um destino que muitos nacionalistas árabes temiam: a dependência umbilical da segurança síria em relação ao Pentágono. Enquanto drones e mísseis americanos riscam o céu de Palmira, a população civil observa uma nova forma de tutela. O combate ao extremismo, embora legítimo em sua urgência, torna-se o salvo-conduto para que os EUA mantenham sua influência geopolítica no coração do Levante, garantindo que nenhum novo eixo de poder hostil aos interesses petrodólares se consolide na região.

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A ausência de dados sobre baixas civis ou danos colaterais nos comunicados do CENTCOM é uma omissão clássica da retórica imperial. No teatro de guerra sírio, a precisão tecnológica é frequentemente usada como eufemismo para a manutenção de um estado de guerra permanente, onde a paz é sempre uma promessa futura, condicionada à aniquilação total de um inimigo que, ironicamente, muitas vezes se nutre do próprio ressentimento gerado pelas intervenções estrangeiras.

A colaboração entre o governo Sharaa e Washington pode ser vista como uma traição aos princípios da soberania nacional síria?

A resposta reside na fina linha entre pragmatismo e submissão. Para o novo governo sírio, a aliança com os EUA é o preço para evitar o colapso total frente a grupos jihadistas e garantir o reconhecimento das potências ocidentais. Entretanto, para a intelectualidade crítica e os defensores da autodeterminação, a presença de mil soldados estrangeiros e a liberdade de bombardeio concedida ao CENTCOM configuram uma soberania amputada. O país corre o risco de trocar uma ditadura autóctone por um protetorado de fato, onde as decisões mais críticas sobre segurança e recursos continuam sendo tomadas a milhares de quilômetros de distância, em Washington.

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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