30 de maio de 2025, Brasília (DF) – Em mais um movimento para institucionalizar a impunidade bolsonarista, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), enviou pessoalmente ao ex-presidente Jair Bolsonaro a minuta de uma nova versão do projeto de anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
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O texto, descrito por interlocutores como uma versão “light” do projeto original, foi moldado sob medida para minimizar resistências jurídicas e garantir sua aprovação no Congresso Nacional, driblando o veto do Supremo Tribunal Federal (STF).
Bolsonaro avalia novo texto da anistia
A minuta foi repassada a Jair Bolsonaro com a promessa de uma resposta na próxima semana, quando ambos devem se reunir para ajustes finais. A reformulação do projeto é vista como uma última cartada para viabilizar politicamente a proposta, que permanece travada na Câmara dos Deputados, bloqueando outras votações no primeiro semestre legislativo.
De acordo com a apuração da coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, o objetivo da nova redação é “desidratar” os pontos mais explícitos de afronta ao Estado Democrático de Direito, oferecendo uma roupagem institucional ao perdão coletivo buscado pela extrema-direita.
Câmara sob chantagem bolsonarista
A movimentação de Hugo Motta representa mais do que uma tentativa de negociação política: é um gesto calculado de rendição às exigências do núcleo bolsonarista no Parlamento. Após assumir a presidência da Câmara com apoio de diversos partidos – inclusive o PL, de Bolsonaro –, Motta agora tenta retribuir o investimento, buscando destravar o projeto da anistia como moeda de troca para a governabilidade do bloco conservador.
Um dos interlocutores que recebeu Motta recentemente foi o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da bancada bolsonarista na Câmara. A eles se somam lideranças religiosas como o pastor Silas Malafaia, que chegou a chamar o presidente da Casa de “covarde” por não pautar o requerimento de urgência do projeto anterior.

Senado também quer participar da blindagem
Enquanto isso, no Senado Federal, uma versão paralela da anistia vinha sendo costurada por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Casa. Esse texto, no entanto, foi rejeitado por setores do bolsonarismo por, supostamente, acatar o entendimento do ministro Alexandre de Moraes, relator das ações penais contra os golpistas de 8 de janeiro no STF.
A disputa entre as duas Casas Legislativas escancara o desconforto da extrema-direita com qualquer mediação institucional que reconheça a gravidade dos atos antidemocráticos. O projeto da anistia, portanto, não é apenas um debate jurídico: é o centro de uma batalha política para reescrever o passado recente e absolver preventivamente futuros atentados à democracia.
Anistia como projeto de poder
A nova versão da anistia que Hugo Motta tenta viabilizar tem mais implicações do que aparenta. Ao propor uma “pacificação” forçada em nome de um suposto interesse nacional, o projeto funciona como escudo político para manter a militância bolsonarista mobilizada e blindar a cúpula do movimento de possíveis responsabilizações.
Trata-se de um projeto de poder, que busca reabilitar juridicamente Jair Bolsonaro e seus aliados, minando decisões do Judiciário, atacando a memória dos ataques de janeiro de 2023 e banalizando os limites constitucionais. A manobra articula Parlamento, setores religiosos fundamentalistas e o espectro mais reacionário da sociedade civil.
STF no alvo da sabotagem institucional
O objetivo político central da nova proposta é evidente: neutralizar o STF, acusado insistentemente por bolsonaristas de “perseguição” e “ativismo judicial”. A tentativa de bypassar o Supremo por meio de um substitutivo “palatável” revela a contínua erosão das instituições por dentro, convertendo o Congresso em instrumento de sabotagem institucional.
É nesse contexto que figuras como Silas Malafaia, Davi Alcolumbre e Hugo Motta operam, cada um à sua maneira, para naturalizar a impunidade e apagar os rastros do golpismo. A anistia, se aprovada, não será um ato de reconciliação, mas uma anulação simbólica e jurídica do processo democrático.
Caminho para 2026 e a volta de Bolsonaro
Essa engenharia legislativa também se conecta diretamente com o calendário eleitoral de 2026. Com Jair Bolsonaro inelegível até o momento, o avanço de um projeto de anistia pode abrir caminho para sua reabilitação política. Essa possibilidade mobiliza setores inteiros do PL e da extrema-direita evangélica, que enxergam no projeto a chance de manter viva a figura de Bolsonaro como capital eleitoral.
O texto da anistia, portanto, não se dirige apenas ao passado recente. Ele aponta para o futuro imediato da política brasileira, em que as instituições democráticas continuam sendo testadas por um bloco autoritário em plena reorganização estratégica.

