Maioria do país rejeita tese de perseguição a Bolsonaro, aponta Quaest

Pesquisa revela que a narrativa do “preso político” não convence o eleitorado e isola o bolsonarismo mais radical.
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

✅ 52% atribuem a prisão de Bolsonaro a atos próprios ou do entorno familiar
✅ Apenas 21% veem perseguição política do STF ou de Alexandre de Moraes
✅ 32% apontam violação da tornozeleira eletrônica como principal fator
✅ 51% consideram que o ex-presidente merece estar preso
✅ Para 56%, Bolsonaro sai politicamente mais fraco após a detenção

A retórica do martírio, tão cara ao bolsonarismo desde 2018, começa a perder aderência fora da bolha. A mais recente pesquisa Genial/Quaest mostra um dado incômodo para o ex-presidente Jair Bolsonaro: a maioria dos brasileiros não compra a versão de que sua prisão seria fruto de perseguição política. Para o país real, o problema não está no Supremo — está no próprio personagem.

Paralelo Histórico/Literário
A história é pródiga em líderes que, ao enfrentar a Justiça, tentaram vestir a fantasia do perseguido. De Luís Bonaparte a caudilhos latino-americanos do século XX, a estratégia quase sempre foi a mesma: transformar responsabilização em conspiração. Raramente funciona por muito tempo fora dos círculos de fé.

“Quando a Justiça bate à porta, o autoritarismo costuma gritar ‘perseguição’ — é o último abrigo de quem perdeu o argumento.”

O que dizem os números

Realizada em dezembro com 2.004 entrevistados em todo o país, a pesquisa Genial/Quaest indica que 52% dos brasileiros avaliam que a prisão de Bolsonaro decorre de atos praticados por ele ou por familiares. Apenas 21% enxergam perseguição política por parte do STF ou do ministro Alexandre de Moraes. Outros 5% citam razões diversas, enquanto 22% não souberam ou preferiram não responder.

Ao detalhar os fatores que pesaram para a decisão judicial, 32% apontam os danos à tornozeleira eletrônica como o principal motivo. Para 16%, o risco de fuga para o exterior foi determinante. A vigília organizada por apoiadores aparece com apenas 4% das menções, enquanto o restante se divide entre outras justificativas ou indecisão.

Um país bem informado

O caso não passou despercebido. Segundo o levantamento, 89% dos entrevistados sabem que Bolsonaro está preso em uma cela da Polícia Federal, em Brasília. O nível de conhecimento se mantém alto independentemente da renda ou da orientação política, desmontando a ideia de desinformação generalizada sobre o episódio.

Quando a pergunta é direta — se o ex-presidente merece estar preso —, 51% respondem que sim. Outros 42% insistem na tese de perseguição política, e 7% não souberam ou não responderam. O dado expõe uma sociedade dividida, mas com maioria clara fora do discurso vitimista.

Bolhas e fissuras

Entre eleitores do presidente Lula, 91% afirmam que Bolsonaro merece a prisão. No campo bolsonarista, apenas 4% concordam com essa avaliação, enquanto 52% falam em perseguição. Ainda assim, há rachaduras: 18% dos próprios apoiadores do ex-presidente reconhecem que a violação da tornozeleira eletrônica pesou na decisão judicial.

Entre eleitores independentes, 29% apontam o dano ao equipamento como causa principal da prisão, contra 16% que veem perseguição. Já entre eleitores de esquerda que não votaram em Lula, 51% também responsabilizam Bolsonaro por sua situação.

Força ou fraqueza política

O impacto político da prisão tende a ser negativo para o ex-presidente. Para 56% dos brasileiros, Bolsonaro saiu mais fraco do episódio. Outros 36% acreditam que ele se fortaleceu, enquanto 8% não souberam avaliar. O dado sugere que a estratégia do confronto permanente com as instituições pode estar rendendo mais isolamento do que capital político.

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