
O poder, ao contrário do mito, não é imune ao tempo. Ele apenas aprende a conviver com ele. Quando Lula se submete a exames pré-operatórios e agenda uma cirurgia de catarata, o gesto não é clínico; é institucional.
O presidente trata do olho esquerdo, mas o Estado observa com ambos. Não há crise, não há sobressalto — há rotina. E essa é a notícia.
Perspectivas Editoriais
A agenda concentrada na Granja do Torto cumpre uma função simbólica precisa: desloca o centro do poder sem deslocar o comando.
O Planalto, prédio e liturgia, cede espaço à residência oficial, que historicamente serve de abrigo para decisões tomadas em tom menor, porém contínuas. O recado é claro: o governo não para; apenas muda de sala.
Catarata é procedimento comum, de baixo risco, dizem as notas oficiais. A informação é correta e, ao mesmo tempo, secundária. O essencial está na encenação controlada da normalidade. Presidentes não podem adoecer em público; podem, no máximo, administrar o envelhecimento com disciplina comunicacional. Lula, veterano do poder, conhece o roteiro. Não dramatiza, não esconde, não explica demais.
O corpo como agenda
Governar é também gerenciar o próprio corpo como instrumento político. A cirurgia no olho esquerdo acontece após uma viagem internacional intensa, com discursos duros sobre a América Latina, críticas à paralisia de organismos multilaterais e a defesa da neutralidade do Canal do Panamá. O contraste é eloquente: o presidente que confronta a geopolítica global submete-se, no dia seguinte, à precisão microscópica de um bisturi oftalmológico.
Não há contradição. Há coerência. O poder que se exerce por palavras e gestos precisa de visão. Literalmente. O Estado moderno exige presença contínua; a saúde do governante torna-se, assim, parte da governabilidade. Ao informar sem alarde, o Planalto preserva a autoridade e evita a ansiedade — dois ativos políticos escassos.
Normalidade como estratégia
A ausência de detalhes sobre o tempo de recuperação não é descuido. É cálculo. Em democracias maduras, a saúde do chefe de Estado é comunicada o suficiente para informar, não o bastante para alimentar especulação. A cirurgia não “compromete a rotina”, diz a expectativa oficial. A frase é um antídoto contra o ruído.
O Brasil já viveu o oposto: silêncios prolongados, versões conflitantes, boatos como política pública. Aqui, a opção é outra. A catarata não vira metáfora de crise; vira procedimento. O governo segue. A máquina administrativa continua a girar, indiferente ao repouso breve de quem a lidera.
Idade, poder e classe
Há, porém, uma camada menos confortável. O envelhecimento do poder não é apenas biológico; é estrutural. A política brasileira insiste em lideranças longevas porque falhou em produzir alternativas com densidade nacional. O país recorre aos mesmos nomes para garantir previsibilidade. A cirurgia de Lula lembra, sem intenção, que o sistema depende de corpos específicos para manter seu equilíbrio.
Isso não é uma crítica ao indivíduo, mas ao arranjo. A classe política se acostumou a operar por reciclagem, não por renovação. Enquanto isso, a população observa com pragmatismo: prefere o conhecido funcional ao novo incerto. A normalidade clínica vira normalidade política.
O que importa, afinal
Não haverá alteração substancial na agenda. Não haverá discurso épico. Não haverá fotografia dramática. A catarata será retirada; a visão, ajustada; o governo, mantido. É assim que o poder maduro se comporta: resolve o necessário e segue.
A notícia, no fim, não é a cirurgia. É a mensagem. O Estado não depende de um olho; depende de um método. Lula, ao tratar do próprio corpo com a mesma previsibilidade com que administra a agenda, reafirma o que sustenta seu governo: continuidade sem sobressalto. Em tempos de instabilidade global, isso é política — da mais calculada.





