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Vexame Institucional

Dinheiro do Povo: Câmara pagou ida de Hugo Motta a jogo do Flamengo

Uma final de futebol, uma missão “oficial” sem relatório e a velha confusão brasileira entre cargo, família e dinheiro público. O episódio envolvendo Hugo Motta expõe como o Estado financia o lazer de quem governa — com naturalidade burocrática e silêncio institucional.

29 de janeiro de 2026

O Brasil não acaba quando termina o expediente. Ele apenas troca de figurino. Em Lima, no Peru, durante a final da Libertadores, o Estado brasileiro vestiu camisa rubro-negra, sentou na arquibancada e pagou a conta.

Não o fez em nome da diplomacia, da segurança nacional ou de qualquer agenda republicana. Fez em nome do conforto de seu presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e de sua comitiva familiar.

O dado bruto é simples, quase banal: R$ 3,55 mil em diárias bancadas pela Câmara para que um policial legislativo acompanhasse Motta na viagem. Uma diária e meia. Dois dias. Um jogo.

O valor, isoladamente, não quebra cofres nem gera manchetes explosivas. O que explode é o símbolo. Porque o escândalo brasileiro raramente mora nos números; ele se esconde na normalização.

A viagem ocorreu nos dias 29 e 30 de novembro, datas registradas como missão oficial do servidor destacado para a escolta.

Missão esta que, meses depois, segue sem relatório concluído, marcada como “pendente” no sistema interno da Câmara.

No país da papelada infinita, a ausência de papel costuma ser a prova mais eloquente de que algo não deveria estar ali.

A fronteira borrada entre público e privado

A final da Libertadores, disputada entre Flamengo e Palmeiras, não foi um evento de Estado. Foi um espetáculo esportivo, com cerveja, família, comemoração e selfies.

Ainda assim, o aparato estatal atravessou fronteiras para garantir que o presidente da Câmara assistisse ao jogo com a segurança paga por quem não foi convidado: o contribuinte.

Hugo Motta não viajou sozinho. Levou o pai, Nabor Wanderley, prefeito de Patos, e o filho. Três gerações celebrando a vitória rubro-negra, fotografadas em clima de festa. Nada disso é ilegal. O problema começa quando o Estado entra na foto sem ser chamado.

A assessoria do parlamentar correu para delimitar o terreno: viagem particular, sem uso de aeronave da FAB. A frase soa técnica, mas é defensiva. Porque ninguém acusou o uso da Força Aérea.

A questão é mais sutil — e mais grave. Trata-se do uso seletivo da máquina pública para blindar a vida privada de quem ocupa o topo da hierarquia institucional.

Sigilo como reflexo automático

Quando questionada sobre a escolta, a assessoria respondeu com a palavra mágica do poder contemporâneo: sigilo. “Detalhes de escolta do presidente são sigilosos por razões de segurança.” O argumento é conhecido, eficiente e quase sempre irrefutável. Ele serve tanto para proteger operações sensíveis quanto para encerrar conversas incômodas.

Mas o sigilo não explica por que uma missão oficial não tem relatório. Não explica por que a atualização dos gastos só apareceu mais de um mês depois. Não explica por que um evento esportivo, assumidamente privado, demandou deslocamento funcional custeado pelo orçamento público.

O silêncio da assessoria de Alexandre Baldy, dono da aeronave que deu carona a Motta, completa o quadro. No Brasil, a carona aérea é um capítulo à parte da sociologia do poder: ninguém paga, ninguém pergunta, ninguém declara.

Classe política, lazer garantido

O episódio revela algo maior do que a conduta de um parlamentar específico. Ele expõe a lógica de uma classe política que internalizou a ideia de que o Estado é um serviço de apoio permanente. Segurança, transporte, diárias — tudo pode ser acionado se o cargo justificar, mesmo quando o motivo é torcer por um time.

Enquanto isso, o cidadão comum aprende, desde cedo, que o público é inacessível, lento, burocrático. Para quem governa, ele é ágil, flexível e compreensivo. A diferença não está na lei, mas na interpretação silenciosa que o poder faz de si mesmo.

Não houve escândalo imediato. Não houve recuo público. Houve apenas o registro tardio, a planilha preenchida fora do prazo e o relatório ausente. O Brasil funciona assim: não se apaga o rastro, apenas se deixa esfriar.

O custo real

R$ 3,55 mil não pagam escolas, nem hospitais, nem resolvem a desigualdade estrutural. Mas pagam algo mais valioso para quem está no topo: a certeza de que o sistema trabalha por eles, mesmo fora do horário, mesmo fora do país, mesmo fora da agenda oficial.

A Libertadores acabou. O Flamengo levantou a taça. O jogo entrou para a memória esportiva. Já a conta ficou onde sempre fica: diluída, invisível, socializada. O Estado, mais uma vez, não assistiu ao espetáculo. Ele bancou.

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