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Brasil reconhece Delcy Rodríguez como atual presidente da Venezuela

Por JR Vital Analista Geopolítico

A manhã amanheceu com um daqueles anúncios que parecem dobrar a história. Em Brasília, o governo brasileiro decidiu se ater ao manual constitucional venezuelano: na ausência do chefe do Executivo, assume a vice. Delcy Rodríguez, até então figura central do chavismo, passa a ser reconhecida pelo Brasil como presidente interina. Em Washington, o tom foi outro — e mais grave. Donald Trump declarou que os Estados Unidos irão “governar” a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro.

Entre a formalidade diplomática e a retórica imperial, abre-se um abismo que atravessa a América Latina há mais de um século.

A sucessão segundo o direito, não segundo os canhões

A confirmação partiu da ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, que afirmou, sem rodeios, que a sucessão segue a ordem constitucional venezuelana. O gesto brasileiro busca separar duas camadas do terremoto político: a queda de Maduro e a preservação do princípio de soberania.

Na prática, é um reconhecimento que tenta impedir o vazio institucional — ainda que o chão sob Caracas esteja longe de ser estável.

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Washington fala em tutela, o mundo ouve “intervenção”

Donald Trump afirmou que a Venezuela será administrada pelos Estados Unidos “por enquanto”, com possibilidade de envio de tropas. A operação que capturou Maduro deixou partes de Caracas sem energia e terminou com o ex-presidente e sua esposa levados para um navio militar americano, rumo a Nova York, onde ele deverá responder por acusações de narcoterrorismo e tráfico internacional.

O problema é menos jurídico e mais político: não está claro quem governa o território venezuelano hoje. As estruturas internas do poder chavista permanecem, enquanto a maior potência do mundo fala em comando externo.

De César ao século XXI: quando a força substitui a toga

Há ecos conhecidos nesse enredo. Em Júlio César, Shakespeare descreve o momento em que a ordem republicana romana é rompida não por falta de leis, mas pelo excesso de ambição travestida de salvação. Mais perto de nós, a Doutrina Monroe — “a América para os americanos” — frequentemente significou a América Latina sob tutela de Washington.

A história ensina que intervenções raramente se encerram no prazo prometido. E quase nunca deixam democracias mais sólidas do que encontraram.

“Toda intervenção começa dizendo que é provisória; poucas têm a honestidade de admitir que pretendem ficar.”

O Brasil entre o realismo e a memória histórica

Ao reconhecer Delcy Rodríguez, o Brasil envia um recado claro: não legitima a ideia de governo estrangeiro imposto pela força. Nos bastidores da ONU e da Celac, a diplomacia brasileira já articula repúdio aos ataques e defesa do multilateralismo.

Não se trata de absolver o legado autoritário de Maduro, mas de lembrar que soberania não é um detalhe descartável quando o mundo decide quem manda em quem

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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