Brasília, 6 de agosto de 2025 — Em meio à crise institucional provocada pela prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, os partidos União Brasil e Progressistas (PP) oficializaram nesta quarta-feira (6) a adesão ao motim liderado pelo PL, que impede o funcionamento regular da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A movimentação visa pressionar o Congresso a pautar uma anistia a aliados do ex-presidente, incluindo parlamentares e militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado em 2023.
A decisão foi anunciada após reunião entre o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e os líderes nacionais do União Brasil e do PP, realizada na manhã de terça-feira. O encontro buscou consolidar apoio à estratégia de obstrução, que inclui a ocupação da Mesa Diretora da Câmara e o boicote ao registro de presença, paralisando oficialmente os trabalhos legislativos.
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Ação viola regimento e divide partidos do centrão
Em nota conjunta, União Brasil e PP classificaram a mobilização como “legítima obstrução parlamentar”. A expressão, no entanto, não encontra respaldo no regimento interno, que proíbe a ocupação física da Mesa Diretora como instrumento de protesto.
A linguagem da nota repete a retórica bolsonarista de “virar a página” e se alinha aos discursos de figuras como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG), que participaram diretamente da invasão do plenário.
Apesar da adesão formal das cúpulas, a base parlamentar dos dois partidos apresenta sinais de racha. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), criticou publicamente a paralisação e afirmou que não aceitará chantagens políticas. Já o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), afirmou que não haverá sanções para deputados que se recusarem a seguir a orientação da legenda.
Movimento é descrito como “simbólico”, mas já trava votações
Lideranças do PL descrevem o motim como uma ação simbólica de dois dias, voltada a “enviar um recado político” ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Palácio do Planalto. A estratégia, no entanto, já comprometeu votações importantes e aprofundou a crise entre os Poderes.
Parlamentares da base do governo Lula, inclusive dentro do PP e do União Brasil, criticaram a postura das cúpulas e alertaram para os efeitos negativos sobre a imagem do Congresso Nacional. Para esses deputados, o ato é uma tentativa velada de pressionar por impunidade e de deslegitimar as instituições democráticas.
Governo monitora cenário, mas evita reação direta
Até o momento, o governo federal não anunciou medidas formais contra os partidos envolvidos. No entanto, segundo fontes do Planalto, a Casa Civil e a liderança do governo na Câmara acompanham com atenção os desdobramentos e aguardam a retomada da sessão plenária, prevista para a noite desta quarta-feira.
O presidente da Câmara em exercício, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que a sessão será aberta mesmo diante da ocupação e que quem tentar impedir o funcionamento da Casa poderá ser suspenso e enviado ao Conselho de Ética.
Articulação por federação entra em xeque
A movimentação conjunta entre União Brasil e PP também tem implicações diretas sobre a tentativa de formação de uma federação partidária, projeto que está sob análise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A adesão à pauta bolsonarista, considerada radical por parte do eleitorado e da opinião pública, pode comprometer o aval da Justiça Eleitoral.
A adesão ao motim expõe o risco político da estratégia: a radicalização pode isolar os partidos do centrão e fragilizar suas bases, especialmente junto aos parlamentares que mantêm interlocução com o governo e setores moderados do Congresso.

