Os Fatos
- A canção “Vera Cruz”, composição inédita de Xande de Pilares e Paulo César Feital, será lançada oficialmente em todas as plataformas digitais no dia 16 de janeiro.
- O single traz a potência da ancestralidade e cita figuras como Clementina de Jesus e Zé Pelintra, culminando com a histórica citação de “Carcará”.
- O lançamento antecipa as últimas apresentações da turnê histórica no Vivo Rio, que serão imortalizadas em gravação de áudio e vídeo nos dias 17 e 18 de janeiro.
Quando Maria Bethânia pisa no palco, não é apenas um show; é um ritual de posse da alma brasileira. Aos 60 anos de uma carreira que costurou o Brasil profundo ao refinamento da dramaturgia, a intérprete baiana nos entrega “Vera Cruz”. Assim como na pintura de Flávio Império que ilustra a capa, onde Ogum e o Corcovado se fundem, a música é um manifesto de soberania espiritual. Como nas páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha, onde a força do povo é descrita como a rocha que resiste às intempéries, a voz de Bethânia se ergue contra o preconceito para afirmar que o Brasil é quilombo, é samba e é liberdade. Ao citar “Carcará” ao fim da faixa, ela fecha um arco de seis décadas: a menina que assombrou o país no espetáculo “Opinião” em 1965 continua sendo o pássaro que não se deixa prender.
Chefe de outra pátria não me induz / Quem vai me guiar / Guarde seu preconceito / Sou livre pra sambar / Carrego nos meus ombros / os quilombos de além-mar.

Qual o significado cultural e religioso da letra de “Vera Cruz” para o Brasil atual?
A composição de Xande de Pilares e Paulo César Feital é uma afirmação da identidade nacional que se recusa a ser colonizada por moralismos importados. Ao invocar Clementina de Jesus, Chico Xavier e o malandro Zé Pelintra, a música desenha a pátria dos Exus — um Brasil plural, sincrético e soberano. Bethânia utiliza sua autoridade artística para dar voz àqueles que o “chefe de outra pátria” tenta silenciar, transformando o samba em uma trincheira de resistência cultural contra o racismo religioso e em favor da equidade que define o verdadeiro espírito do povo brasileiro.
Como a produção musical de Pedro Guedes traduz a estética da “Abelha Rainha”?
A direção musical de Pedro Guedes, acompanhada pelo baixo de Jorge Helder e os teclados de Thiago Gomes, cria uma atmosfera de estúdio que preserva o impacto visceral do palco. O arranjo é uma tapeçaria que une o violão clássico ao pulsar das percussões, servindo de base para que Bethânia explore toda a sua gama dramática. A inclusão do trio vocal de Fael, Janeh e Jenni Rocha adiciona uma camada de “coro de terreiro”, elevando a canção ao status de hino, enquanto a interseção com “Carcará” reafirma que a música popular brasileira é um organismo vivo, onde o passado e o presente dialogam sem cessar.
O que esperar das últimas apresentações e da gravação do DVD no Vivo Rio?
O encerramento da turnê “60 anos de carreira” no Vivo Rio, nos dias 17 e 18 de janeiro de 2026, será o registro definitivo de um marco da MPB. Com roteiro da própria Bethânia, o espetáculo não se limita ao entretenimento, mas propõe uma experiência imersiva onde a música se funde à dramaturgia e à poesia. A gravação em áudio e vídeo garantirá que as futuras gerações tenham acesso à interpretação magistral de uma artista que, aos 80 anos (em 2026), permanece sendo a bússola ética e estética da nossa cultura, provando que o talento, quando aliado ao propósito social, é imortal.





