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Análise

Série All Her Fault é um belo Cavalo de Troia

Por JR Vital Analista Geopolítico

Aclamação e reconhecimento

A minissérie All Her Fault, cuja estreia no Prime Video ocorreu no início de janeiro de 2026, já figura em primeiro lugar no Top 10 da plataforma no Brasil. A obra recebeu duas indicações tanto no Critics Choice Awards quanto no Globo de Ouro de 2026, nas categorias de Melhor Minissérie e Melhor Atriz para Sarah Snook — que se sagrou vencedora nesta última no Critics. Ao longo de seus oito capítulos, percebe-se que, sob o verniz de um suspense envolvendo crimes e famílias ricas, a trama toca em temas humanos candentes na contemporaneidade: o poder e a dominação que estruturam as relações de gênero e familiares.

Quatro paredes sobre o corpo e a alma

Clarice Lispector, em seu romance de estreia aos 23 anos, colocou na boca da protagonista Joana três perguntas que ressoam com força em All Her Fault: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?. As dinâmicas familiares dos casais Marissa e Peter Irvine, e Jenny e Ross, revelam gradualmente como a dominação e o peso do relacionamento atravessam suas vivências, estruturando a experiência conjugal como um aprisionamento.

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É interessante observar que ambos os casais guardam, entre si, certa horizontalidade: todos possuem boa formação e carreiras consolidadas — no caso de Jenny, ela é inclusive mais bem-sucedida que Ross. Contudo, para além do trabalho, recai sobre as mulheres a administração do lar e principal cuidadora do filho, arcando com a dupla jornada de forma naturalizada. Quando Milo, filho de Marissa e Peter, é raptado pela babá de Jacob – filho de Jenny e Ross, os maridos acusam as esposas de negligência. O episódio expõe um mecanismo cultural utilizado por Peter e Ross para a manutenção do domínio masculino: a instrumentalização da culpa.

A culpa é toda sua

Em tradução livre, o título All Her Fault poderia ser lido como a culpa é toda sua. É precisamente o que Peter diz a Marissa quando a polícia confirma o sequestro de Milo. À primeira vista, Peter é um excelente marido e um pai presente e amoroso que, desde os dez anos, assumiu o cuidado dos irmãos, Brian e Lia. Esta última, carregando o peso de ter supostamente causado o acidente que vitimou o irmão mais novo, tornou-se dependente química e amarga a culpa pela deficiência de Brian. Percebe-se, então, que ao lado da dominação de gênero, a culpa é a categoria central que estrutura a obra.

Há uma ironia fina aqui: o espectador é exposto a maior parte do tempo à faceta de um homem bom, ele próprio devastado pelo sumiço do filho. Todavia, como lembrou Jacques Lacan, em Televisão, a culpa é filha do Bem, não do Mal. Cuidar dos outros compõe a identidade de Peter; é onde ele se reconhece e extrai prazer. Contudo, sua benevolência serve também como defesa contra a angústia e justificativa para pequenas e grandes maldades que sempre parecem inevitáveis ou em nome do bem-estar daqueles a quem ama.

Longe de ser uma caricatura do perverso, Peter é complexo e desdobra várias camadas e, excetuando-se os crimes de sangue, ele poderia ser qualquer um de nós no exercício da bondade. Suas ações revelam sacrifícios consideráveis, mas também um altruísmo acentuadamente a serviço do narcisismo. Trata-se de uma personalidade com traços sádicos — como descreveria Freud em O Problema Econômico do Masoquismo — caracterizada pela vontade de potência e destruição mascarada. Para os que cercam os muitos Peters do mundo real, vale a advertência de Chico César e Dominguinhos: que Deus me proteja da maldade de gente boa.

Conclusão

Um dos grandes méritos da produção é oferecer uma denúncia sutil do machismo estrutural, demonstrando como o mal pode ser a flor mais colorida em um jardim de virtudes. Porém, o mais importante é que, ao final, All Her Fault oferece um encaminhamento interessante à indagação clariceana: haveria um meio de ter as coisas sem ser possuído por elas? A última cena da produção é representativa de saídas que não são meramente moralistas, mas éticas, para as Marissa e Jenny. Por essas e outras razões, a série é um convite ao bom entretenimento e à reflexão. Vale a pena!

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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