OS FATOS:
- O filme O Agente Secreto venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa em 11 de janeiro de 2026.
- Wagner Moura conquistou o prêmio de melhor ator em filme de drama, tornando-se o primeiro brasileiro a vencer nessa categoria.
- Lula e Janja da Silva celebraram publicamente o feito, vinculando-o à memória histórica da ditadura e à retomada da cultura nacional.
A Política Da Memória Como Estética De Resistência
Há vitórias que ultrapassam o tapete vermelho e se inscrevem na longa duração da história. O triunfo de O Agente Secreto no Globo de Ouro não pertence apenas à filmografia de Kleber Mendonça Filho, mas ao arquivo simbólico de um país que insiste em disputar a própria narrativa. Num Brasil marcado por tentativas reiteradas de apagamento da violência ditatorial, a consagração internacional de um filme que tematiza a repressão política opera como um ato de reparação estética e política.
Quando Lula escreve que o longa é “essencial para não deixar cair no esquecimento a violência da ditadura e a capacidade de resistência do povo brasileiro”, o presidente não faz um gesto protocolar de celebração cultural. Ele reinscreve o cinema na tradição gramsciana da disputa pela hegemonia: quem controla as imagens controla, em larga medida, o imaginário social. A cultura, aqui, deixa de ser ornamento e retorna ao seu estatuto de campo de batalha.
Wagner Moura E A Internacionalização Do Sujeito Brasileiro
A vitória de Wagner Moura como melhor ator em filme de drama inaugura uma nova gramática para a presença brasileira na indústria audiovisual global. Não se trata apenas de reconhecimento individual, mas da legitimação de um tipo de intérprete que carrega consigo a densidade política do Sul Global. Moura não vence apesar de sua brasilidade; ele vence por meio dela, encarnando personagens que traduzem conflitos históricos e sociais que Hollywood, em geral, prefere exotizar ou silenciar.
Janja, ao afirmar que “o Brasil te ama e tem orgulho de você”, mobiliza uma retórica afetiva que, longe de ser ingênua, aponta para a reconstrução de um pacto simbólico entre Estado, artistas e sociedade. Depois de anos em que o setor cultural foi tratado como inimigo interno por governos de feição autoritária, a imagem da primeira-dama ao lado do ator no Palácio da Alvorada funciona como um gesto de reintegração institucional.
O Brasil No Mapa Da Memória Cinematográfica
A última vez que um filme brasileiro havia vencido o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa fora em 1999, com Central do Brasil. Entre aquele momento e o presente, o país atravessou ciclos de expansão democrática, colapso institucional e regressão autoritária. O retorno ao pódio, agora com duas estatuetas na mesma noite, não é casual; ele espelha a reabertura do Brasil ao mundo após o isolamento diplomático e cultural dos anos de bolsonarismo.
| Edição | Filme Brasileiro | Categoria | Resultado |
|---|---|---|---|
| 1999 | Central do Brasil | Melhor filme em língua não inglesa | Vitória |
| 2025 | — | Melhor atriz | Fernanda Torres venceu |
| 2026 | O Agente Secreto | Melhor filme em língua não inglesa | Vitória |
| 2026 | O Agente Secreto | Melhor ator em drama | Wagner Moura venceu |
A tabela revela uma inflexão histórica: o Brasil deixa de ser exceção episódica e passa a se configurar como presença contínua e relevante no circuito de premiações globais.
Cinema, Estado E Soberania Cultural
A celebração de Lula e Janja não pode ser dissociada de uma política cultural que recoloca o Estado como indutor da produção simbólica. Em um mundo em que as plataformas de streaming e os conglomerados midiáticos operam como vetores de uma homogeneização neoliberal do imaginário, a vitória de um filme brasileiro, falado em português e ancorado em nossa história, representa um gesto de soberania.
O Agente Secreto não venceu por ser “exótico”, mas por articular linguagem cinematográfica sofisticada e densidade política. Essa combinação desafia a lógica colonial que espera do Sul apenas folclore ou violência estetizada. Aqui, a violência é historicizada, e a estética é arma.
Por que as vitórias de O Agente Secreto têm impacto político além do cinema?
Porque elas recolocam o Brasil na disputa global pelo sentido da história, demonstrando que a memória da ditadura e a produção cultural crítica podem ocupar o centro do palco internacional sem mediação colonial.





