Silas Malafaia nunca foi homem de fugir de um holofote, mesmo quando ele emite o calor incômodo de uma investigação parlamentar. Intimado a depor na CPMI do INSS — a comissão que investiga o submundo dos descontos ilegais em folhas de pagamento de idosos —, o pastor reagiu com o deboche que lhe é peculiar.
Após a senadora Damares Alves abrir a “caixa de Pandora” e sugerir que grandes denominações evangélicas serviram de duto para fraudes previdenciárias, o deputado Rogério Correia (PT-MG) não perdeu tempo e carimbou o convite para o líder religioso.
Em vez de silêncio ou notas protocolares, Malafaia postou um vídeo onde, entre risos e bravatas, afirma que “está doido para ir”, transformando o que deveria ser um interrogatório em uma promessa de espetáculo midiático.
A convocação de Malafaia não é apenas um movimento político de revanchismo da esquerda; é o desdobramento lógico de um racha na própria direita “gospel”.
Ao ser chamada de “linguaruda” pelo pastor, Damares Alves não recuou e entregou às autoridades os elos que conectam o sistema bancário, as igrejas e as associações que drenam centavos — que viram milhões — das aposentadorias brasileiras.
A CPMI quer saber se a estrutura logística da Assembleia de Deus foi utilizada para validar contratos de seguros e contribuições “voluntárias” nunca autorizadas pelos beneficiários. Malafaia, ao dizer que sua ida será “positiva”, tenta inverter a lógica do réu: ele quer usar a tribuna da CPMI como um palanque para atacar o governo Lula, mas corre o risco de sair de lá com o sigilo bancário tão devassado quanto o de seus colegas já investigados.
O carisma de Malafaia será suficiente para explicar o fluxo financeiro entre entidades religiosas e empresas de fachada?
Será que o pastor acredita que gritos e citações bíblicas substituirão os extratos que a Receita Federal já começou a compilar? O jogo mudou.
A “Farra do INSS” mexe com o bolso da base eleitoral mais fiel do bolsonarismo: os idosos. Ao ser arrastado para o centro da investigação, Malafaia deixa de ser o conselheiro dos Três Poderes para se tornar uma peça no tabuleiro de crimes financeiros.
Se Rogério Correia conseguir aprovar o requerimento, o Brasil assistirá ao confronto final entre a retórica do altar e a frieza dos números. Malafaia diz que não teme a CPMI, mas o histórico de comissões parlamentares mostra que, quando o rastro do dinheiro aparece, nem a oração mais fervorosa impede o indiciamento.
O Confronto: Malafaia vs. CPMI do INSS
| O Movimento | O Protagonista | A Justificativa Técnica | A Pimenta do Diário |
| A Intimação | Rogério Correia (PT) | Suspeita de lavagem e fraude. | O petista servindo o prato que Malafaia odeia. |
| A “Denúncia” | Damares Alves | Vínculos entre igrejas e esquemas. | O “fogo amigo” que queimou o teto do pastor. |
| A Reação | Silas Malafaia | “Vou com prazer e quero ir logo”. | O blefe de quem tenta esconder o medo com o barulho. |
| O Risco | Quebra de Sigilo | Rastreio de doações e repasses. | Onde o dízimo sagrado encontra o desconto profano. |
Malafaia está tentando transformar o limão da investigação em uma limonada eleitoral para 2026. Ele sabe que a sua rejeição de 46% na Quaest precisa de um “inimigo externo” para ser estancada, e nada melhor do que o PT para cumprir esse papel.
No entanto, o “X” da questão não está no debate ideológico, mas nos contratos de consignados. Se os documentos que Damares enviou à CPMI forem robustos, o “prazer” de Malafaia em depor pode se transformar no pesadelo de ter que explicar por que a fé, no Brasil do bolsonarismo tardio, tornou-se um modelo de negócio tão lucrativo — e tão suspeito aos olhos da Previdência.





