A orla de Ipanema, cenário de cartões-postais e privilégios, transformou-se em campo de batalha na tarde desta quarta-feira (14). Um protesto de ambulantes na Avenida Vieira Souto, que culminou em barricadas de lixo e confronto com a Guarda Municipal e a PM, é o sintoma febril de um Rio de Janeiro que tenta “higienizar” seus espaços públicos à força. O grupo, que gritava “queremos trabalhar”, reage às novas e polêmicas regras de uso noturno do Arpoador, implementadas pela gestão Eduardo Paes no início de janeiro sob o pretexto de “segurança” e “limpeza”.
As medidas, que estabelecem o fechamento da Pedra do Arpoador às 21h e o do Parque Garota de Ipanema às 20h, funcionam, na prática, como um toque de recolher que asfixia a economia informal da noite. Enquanto a Secretaria de Ordem Pública (SEOP) alega agressões contra seus agentes, o movimento dos ambulantes denuncia a falta de diálogo e o impedimento de levar o sustento para casa em plena alta temporada. A “Navalha Carioca” corta: o “ordenamento” de Paes, aplaudido pela elite do Leblon, é o mesmo que empurra o trabalhador para a invisibilidade e o confronto no asfalto.
A privatização simbólica do espaço público — com grades e horários restritivos — ignora a vocação democrática das praias cariocas. O uso de contêineres de lixo para fechar a Vieira Souto é o recurso desesperado de quem foi jogado para fora da resolução conjunta da prefeitura. Quando o Estado prioriza a limpeza mecanizada da Comlurb sobre o direito ao trabalho e ao lazer noturno, a “cidade maravilhosa” se apequena, tornando-se um condomínio vigiado onde o pobre só entra se estiver uniformizado e autorizado.
O Toque de Recolher em 2026: Entenda as Regras
A operação conjunta entre Prefeitura e PM no Arpoador estabeleceu limites rígidos para o verão, gerando o estopim para a revolta dos ambulantes:
| Local | Horário de Acesso Público | Período de Restrição (Limpeza/Segurança) |
| Pedra do Arpoador | 04h às 21h | 21h às 04h (Saída orientada até as 23h) |
| Parque Garota de Ipanema | 06h às 20h | 20h às 06h (Fechamento total) |
| Faixa de Areia (Posto 7/8) | Livre circulação | 02h às 04h (Isolamento para limpeza) |
| Atividade Comercial | Somente autorizados | Coibição total de ambulantes irregulares e som. |
Apartheid Urbano
O que o governo chama de “regras de convivência” é, na verdade, um manual de exclusão. Fechar o Arpoador — o lugar onde o Rio se encontra para saudar o sol — durante a madrugada é uma confissão de incapacidade do poder público em prover segurança sem cercear a liberdade. A correria vista hoje na Vieira Souto é o espelho de um modelo de cidade que prefere o conflito ao cadastramento e à organização participativa.
Se a prefeitura quer “ordenar”, que o faça garantindo licenças e espaços para quem precisa vender o mate e o biscoito para sobreviver, e não transformando a orla em uma zona militarizada. O Arpoador não precisa de grades; precisa de iluminação, policiamento preventivo e respeito a quem faz da praia o seu ganha-pão. A “linguarice” de Malafaia e os bloqueios de Zettel podem ocupar as manchetes, mas é na Vieira Souto, entre o gás lacrimogêneo e o grito de “queremos trabalhar”, que se decide que tipo de Rio teremos em 2026.





