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Tiranos não Passarão

EUA podem “administrar” a Venezuela? A história sugere que não

JR Vital
JR Vital jan. 4, 2026 | Atualizado jan. 28, 2026

Governar outro país sempre foi mais fácil no discurso do que na realidade. A ofensiva militar que resultou na captura de Nicolás Maduro abriu um vazio político imediato — e um debate profundo sobre até onde vai, de fato, o poder dos Estados Unidos. Ao sugerir que Washington poderia “administrar” a Venezuela até uma transição, Donald Trump reativou um fantasma antigo da política externa americana: a crença de que força militar substitui legitimidade.

Não se trata apenas de Maduro, nem da avaliação moral sobre o chavismo. O ponto central é estrutural. Estados modernos não são empresas em recuperação judicial, tampouco territórios sem história. São sistemas sociais complexos, marcados por soberania, memória coletiva e, sobretudo, consequências.

A situação remete a Tucídides, em A Guerra do Peloponeso. Atenas, no auge de seu poder, acreditou que podia impor sua vontade a qualquer cidade. O resultado foi a erosão da própria democracia ateniense. O império, ensina a história, cobra juros altos.

“Quando o poder se confunde com direito, o império começa a perder a capacidade de se governar a si mesmo.”

MUNDO

Análise & Contexto

Após o sequestro de Maduro, declarações de Trump e críticas do New York Times expõem o limite entre poder militar, legalidade e memória histórica.

O labirinto jurídico da “administração” estrangeira

Precedentes que não se repetem

A Casa Branca acena com o precedente do Panamá, em 1989. Mas mesmo ali, após a captura de Manuel Noriega, os EUA não governaram o país. Um presidente local foi empossado rapidamente, ainda que sob forte influência americana. Não houve ocupação formal nem tutela direta prolongada.

Na Venezuela, Trump sugere algo diferente: controle político enquanto pressiona a vice-presidente Delcy Rodríguez a cooperar. O problema é simples e grave — não existe, hoje, arcabouço jurídico internacional que legitime tal arranjo sem consentimento interno ou mandato da ONU.

A Carta da ONU e o direito internacional

O uso da força em território soberano é proibido, salvo em casos de autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança. Prender um chefe de Estado para julgamento externo é classificado como aplicação da lei, não como defesa imediata. A justificativa americana, portanto, caminha em terreno instável.

O limite constitucional nos EUA

Internamente, a controvérsia é igualmente séria. A Constituição dos EUA incorpora tratados internacionais como lei suprema. Ainda assim, interpretações históricas do Executivo tentam abrir exceções. Nenhuma delas, porém, recebeu chancela definitiva da Suprema Corte.

Bombardeios realizados durante a operação foram classificados como defensivos, mas críticos questionam a ausência de autorização explícita do Congresso para o uso da força — um ponto sensível em qualquer democracia que se pretenda funcional.


Maduro, imunidade e tribunais americanos

Outro nó jurídico envolve a imunidade de chefes de Estado. O direito internacional tradicional protege líderes em exercício. Washington tenta contornar essa regra ao sustentar que Maduro não é um presidente legítimo, mas o chefe de uma organização criminosa.

O histórico é contraditório: os EUA reconheceram Maduro por anos e só romperam formalmente em 2019. A Suprema Corte tende a aceitar que o Executivo define o reconhecimento de governos estrangeiros, o que pode enfraquecer a defesa. Ainda assim, o precedente é perigoso — porque pode ser usado contra qualquer líder inconveniente no futuro.


O alerta do New York Times: memória contra arrogância

Em editorial duro, o New York Times classificou a ofensiva como ilegal à luz da Constituição americana e do direito internacional. Reconheceu os abusos do chavismo, mas lembrou que derrubar regimes pela força raramente produz estabilidade.

Afeganistão, Iraque e Líbia não são notas de rodapé — são advertências. A justificativa do combate ao narcotráfico foi considerada frágil, e a mobilização militar no Caribe, desproporcional. Para o jornal, a operação parece menos uma resposta a uma ameaça concreta e mais uma tentativa de reafirmar hegemonia no Hemisfério Ocidental.

O risco, aponta o editorial, é duplo: aprofundar a instabilidade regional e oferecer munição retórica a outros líderes autoritários mundo afora.


No centro do debate permanece a pergunta incômoda: mesmo que a captura de Maduro avance nos tribunais americanos, é politicamente sustentável, juridicamente defensável e historicamente sensato imaginar os Estados Unidos “administrando” a Venezuela sem repetir o custo humano, estratégico e moral de intervenções passadas?

A história, até agora, responde com um sonoro não.

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