Quando o controle das armas se transforma no controle das contas bancárias, a disputa deixa de ser apenas militar e passa a ser estrutural. O anúncio dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano não se limita à logística energética: ele redefine soberania, propriedade e poder decisório. O discurso é de tutela; o efeito é de apropriação.
Do imperialismo do século XIX às intervenções “administradas” do pós-Guerra Fria, a história registra um padrão recorrente: recursos naturais sob custódia externa em nome de uma promessa futura. Joseph Conrad já descrevia esse mecanismo em Coração das Trevas: a extração vinha antes da justificativa moral.
Contas sob controle americano
O Departamento de Energia dos Estados Unidos informou que os valores obtidos com a venda do petróleo bruto e de derivados da Venezuela serão depositados em contas bancárias controladas por Washington. Segundo o governo americano, a medida serviria para garantir “legitimidade e integridade” na destinação futura dos recursos, que será definida a critério do próprio governo dos EUA.
Vendas imediatas e sem prazo
De acordo com o comunicado oficial, a comercialização do petróleo começa imediatamente e seguirá por tempo indeterminado. O combustível será vendido a preço de mercado, com logística organizada pelos Estados Unidos, incluindo transporte marítimo direto para terminais em território americano.
Contexto militar e energético
O anúncio ocorre dias após uma operação militar conduzida pelos EUA em território venezuelano, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e em mortes de militares venezuelanos e cubanos. Desde dezembro, milhões de barris permaneciam estocados em navios e tanques, sem escoamento, em razão de bloqueios impostos por Washington.
Nesta semana, forças americanas também apreenderam um petroleiro de bandeira russa no Atlântico, ligado à cadeia de exportação venezuelana, reforçando a estratégia de controle do fluxo energético regional.
O “novo acordo” anunciado por Trump
Em declaração pública, Donald Trump afirmou que a Venezuela utilizará as receitas do petróleo para comprar exclusivamente produtos fabricados nos Estados Unidos. Segundo o presidente, o acordo envolveria alimentos, medicamentos, equipamentos médicos e infraestrutura energética, caracterizando uma relação comercial assimétrica, definida unilateralmente por Washington.
Produção, sanções e impacto regional
Apesar de deter as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela produz atualmente cerca de 1 milhão de barris por dia, volume inferior ao potencial histórico do país. Antes das sanções americanas, exportava aproximadamente 500 mil barris diários apenas para os EUA. Refinarias da Costa do Golfo seguem adaptadas ao petróleo pesado venezuelano, agora reintroduzido sob novo arranjo político.
Autoridades americanas indicam que reuniões com executivos do setor petrolífero devem ocorrer ainda nesta semana para definir os próximos passos da exploração e da comercialização.





