A diplomacia do “quem dá mais” de Donald Trump encontrou uma barreira de gelo no Eliseu. Neste sábado, Emmanuel Macron não apenas rejeitou as ameaças de sobretaxar produtos europeus em até 25%, como elevou a aposta ao reafirmar que a soberania da Groenlândia é um pilar inegociável da segurança continental.
Para Macron, a tentativa de Trump de condicionar o comércio internacional à anexação de um território soberano é um “anacronismo colonial” que não encontra lugar no século XXI. “Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará — nem na Ucrânia, nem na Groenlândia”, disparou o líder francês, deixando claro que a Europa não pretende ser o quintal de luxo das excentricidades imobiliárias da Casa Branca.
A retaliação americana, que visa atingir nações como França, Alemanha, Suécia e Reino Unido, é a resposta irascível de Trump ao movimento militar batizado de Arctic Endurance. Esta coalizão europeia, liderada pela Dinamarca, já conta com botas francesas e alemãs no solo ártico, uma presença que Washington interpreta como um desafio direto ao seu “Domo de Ouro” — o escudo antimísseis que Trump quer construir sobre a ilha. O que para os EUA é “segurança nacional”, para Macron é uma violação do direito internacional que exige uma resposta unificada. A Comissão Europeia já discute o congelamento de acordos comerciais com os americanos, provando que, se Trump quer uma guerra de tarifas, a Europa está pronta para fornecer o campo de batalha.
O gelo como trincheira e a farsa do “Domo de Ouro”
A obsessão de Trump pela Groenlândia, sob o pretexto de impedir o avanço de Rússia e China, soa para os europeus como uma desculpa esfarrapada para o controle de recursos minerais e rotas marítimas estratégicas. Ao ameaçar com tarifas de 10% já em fevereiro, subindo para 25% em julho, Trump tenta usar o estômago dos consumidores europeus para dobrar a vontade de Copenhague. No entanto, o efeito tem sido o oposto: a união em torno da Dinamarca fortaleceu o eixo Paris-Berlim. Macron, em coordenação com António Costa, presidente do Conselho Europeu, sinaliza que a independência das nações é a “linha vermelha” que os Estados Unidos não conseguirão cruzar com canetadas tarifárias.
Enquanto Javier Milei se apressa em oferecer a Argentina como sócia menor nos novos conselhos de Trump, a Europa de Macron prefere o caminho da resistência soberana. O envio de meios navais e aéreos franceses para a Groenlândia não é apenas um exercício militar; é um recado geopolítico: o Ártico não é uma mercadoria e a OTAN não é um balcão de negócios imobiliários. A ironia reside no fato de que, enquanto Trump acusa a Europa de “viver às custas dos EUA”, ele tenta cobrar o aluguel do mundo através de sanções que ignoram tratados de séculos.
A anatomia da chantagem e a resposta do bloco
- A Ameaça: Tarifas progressivas (10% a 25%) contra quem se opuser à compra da Groenlândia.
- O Argumento de Trump: “Paz mundial” e defesa contra a influência sino-russa; a ilha como peça do Domo de Ouro.
- A Resposta de Macron: Envio de militares (Arctic Endurance) e articulação de retaliação comercial conjunta da UE.
- O Fator Soberania: Dinamarca e Groenlândia reiteram que o território “não está à venda”.
Do acordo Mercosul ao isolamento de Washington
É sintomático que Macron tenha reagido com tal firmeza no mesmo dia em que o acordo entre Mercosul e União Europeia foi assinado. Enquanto a Europa se abre para o Sul Global para reduzir sua dependência de parceiros instáveis, os Estados Unidos de Trump se fecham em um protecionismo agressivo e coercitivo. O contraste entre o aperto de mão de Santiago Peña e os aplausos a Lula em Assunção, frente à paralisia de Milei e aos gritos tarifários de Trump, desenha um novo mapa-múndi onde a racionalidade diplomática fala português e francês, enquanto o rancor e a ganância falam inglês e se isolam na Flórida.
Abaixo, a escalada das tensões que colocam o comércio transatlântico em rota de colisão.
| Ação dos EUA (Trump) | Reação da União Europeia (Macron/Costa) | Impacto Geopolítico |
| Tarifa de 10% (01/02) | Suspensão de negociações comerciais e reciprocidade. | Início da guerra comercial aberta. |
| Tarifa de 25% (01/07) | Bloqueio de produtos americanos de alta tecnologia. | Ruptura das cadeias de suprimento da OTAN. |
| Exigência de Anexação | Operação Arctic Endurance (tropas no solo). | Militarização inédita do Ártico por aliados. |
| Chantagem “Paz ou Taxa” | Denúncia na ONU e defesa da soberania dinamarquesa. | Isolamento diplomático total de Washington no G7. |
Macron sabe que ceder agora à “intimidación” — como ele mesmo definiu — seria o fim da União Europeia como projeto de poder autônomo. O presidente francês joga para a história, posicionando-se como o defensor da Carta das Nações Unidas contra o “atropelo” de um império que confunde aliados com vassalos. Se o gelo da Groenlândia é o que Trump deseja, ele encontrará uma Europa fria e calculista, disposta a pagar o preço da guerra tarifária para não ter que vender o que resta da sua dignidade soberana ao primeiro bilionário que bater à porta.
Foram citados nesta notícia: Emmanuel Macron, Donald Trump, António Costa, Lars Løkke Rasmussen, J.D. Vance, Marco Rubio, Dinamarca, Groenlândia, União Europeia, OTAN.





