quarta-feira, janeiro 21, 2026
22 C
Rio de Janeiro
InícioMundoEleições: Portugal ensaia um regresso ao passado sob o bafo da extrema-direita
De volta ao atraso

Eleições: Portugal ensaia um regresso ao passado sob o bafo da extrema-direita

Por JR Vital Analista Geopolítico

As ruas de Lisboa, outrora palcos da Revolução dos Cravos que desmantelou o salazarismo, amanheceram este domingo sob uma névoa de incerteza que a meteorologia não explica.

Pela primeira vez em quatro décadas, o sistema político de Portugal, tradicionalmente ancorado em uma alternância previsível e quase monótona, fragmentou-se como um espelho atingido por uma pedra atirada do passado.

Cinco candidatos caminham lado a lado, um empate técnico que não apenas sugere um segundo turno inevitável, mas expõe as entranhas de uma democracia que começa a cansar de si mesma.

O fenômeno não é isolado e nem fruto do acaso; é a metástase de um sentimento que já vimos florescer em solo brasileiro sob a égide de Jair Bolsonaro, o golpista. Lá, como cá, a retórica do ódio e o nacionalismo de botequim encontraram terreno fértil nas frustrações de uma classe média que se sente órfã de império.

- Advertisement -

André Ventura, o rosto do Chega, personifica essa mutação estética do fascismo moderno, trocando a farda pelo terno ajustado, mas mantendo o mesmo léxico de exclusão que define o imperialismo contemporâneo.

António José Seguro, o socialista que tenta segurar as rédeas de um sistema em erosão, representa a tentativa de manutenção de um humanismo que parece, para muitos, burocrático demais diante do barulho das redes sociais.

Seguro é um político de carreira, cuja trajetória é marcada pela prudência que beira a imobilidade, enquanto Ventura é o ruído puro, a cacofonia que atrai os desesperançados.

O que está em jogo nas urnas lusas não é apenas a escolha de um mestre de cerimônias com o poder de dissolver o Parlamento, mas o próprio caráter da hospitalidade portuguesa.

A imigração tornou-se o grande moinho de vento desta jornada quixotesca, utilizada como espantalho por aqueles que preferem culpar o estrangeiro a enfrentar a ganância do capital financeiro internacional.

É curioso observar como países que construíram sua riqueza explorando territórios além-mar agora se horrorizam com a chegada daqueles que buscam apenas o que lhes foi subtraído por séculos de colonização.

O debate eleitoral foi sequestrado por uma pauta de medo, onde a dignidade humana é negociada em troca de votos de uma direita tradicional que, para não morrer, aceitou o abraço de urso da ultradireita.

Até onde a memória curta dos eleitores pode levar uma nação ao abismo?

A história de Portugal é um palimpsesto de glórias navegantes e sombras inquisitoriais, e o momento atual parece ser uma tentativa de apagar as lições de 1974.

A ascensão de figuras como André Ventura, um ex-comentarista de futebol que percebeu que a política poderia ser o seu novo gramado de ofensas, é o sintoma de uma anemia intelectual que assola o Ocidente.

Enquanto o golpista Jair Bolsonaro tentava no Brasil subverter as urnas com a força bruta da desinformação, em Portugal a tática é o estrangulamento institucional por dentro, utilizando-se das liberdades democráticas para aniquilá-las.

A direita tradicional, representada por nomes que outrora prezavam pela liturgia do cargo, agora patina em uma tentativa patética de mimetizar o discurso radical para não perder o eleitorado.

É uma dança das cadeiras onde a música é um fado triste sobre a perda de soberania para os algoritmos de ódio.

O cenário de 1986, o último grande embate em dois turnos entre Mário Soares e Freitas do Amaral, era um conflito de projetos; o cenário de 2026 é um conflito entre a civilização e o ressentimento puro.

  • Dignidade humana tratada como mercadoria eleitoral de baixo custo.
  • Retórica xenófoba em um país construído pela diáspora e pelo mar.
  • Instituições democráticas sendo testadas por quem jurou destruí-las.
  • A complacência da mídia tradicional com o absurdo travestido de opinião.

Portugal sempre foi o laboratório das tendências políticas que depois atravessam o Atlântico, e ver o país nesta encruzilhada é preocupante para qualquer humanista que preze pela justiça social.

O papel do presidente, embora constitucionalmente limitado, ganha contornos de salvaguarda ou de carrasco, dependendo de quem sentar na cadeira do Palácio de Belém.

Se o vencedor for alguém alinhado ao projeto de pilhagem financeira e exclusão social, o Parlamento será a próxima vítima de uma dissolução motivada por caprichos ideológicos.

PersonagemPerfil PolíticoPostura em Direitos HumanosRelação com a Democracia
António José SeguroSocialista ModeradoDefesa institucional clássicaPreservação do sistema atual
André VenturaUltranacionalistaRetórica de exclusão e ódioInstrumentalização para o poder
Direita TradicionalConservadorismo LiberalVacilante conforme a conveniênciaRespeito meramente formal
Jair BolsonaroO GolpistaDesprezo absoluto e violentoTentativa de ruptura total

O quadro acima revela que a polarização não é um encontro de opostos equivalentes, mas sim o embate entre a sanidade possível e o delírio autoritário que se espalha como uma praga.

A política portuguesa, que por décadas foi o porto seguro da Europa do Sul, agora enfrenta ondas que podem naufragar o ideal de uma sociedade fraterna e pluralista.

Não se enganem: o que acontece em Lisboa reverbera em Brasília, Paris e Madrid; é a luta global contra o fascismo que se recusa a morrer e o imperialismo que se recusa a pedir desculpas.

Será que a erudição do povo português será suficiente para discernir entre o gogó dos demagogos e a realidade dos fatos?

A resposta virá das urnas, mas o estrago causado pela legitimação do discurso de ódio já é uma cicatriz profunda na face da República.

Portugal precisa decidir se quer ser a vanguarda de uma nova resistência ou se será apenas mais um capítulo na história da decadência democrática europeia sob o jugo do capital e do medo.

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

Parimatch_Cassino_onlineParimatch_Cassino_onlineParimatch_Cassino_onlineParimatch_Cassino_online

Mais Notícias

Em Alta:

Mais Lidas