As ruas de Lisboa, outrora palcos da Revolução dos Cravos que desmantelou o salazarismo, amanheceram este domingo sob uma névoa de incerteza que a meteorologia não explica.
Pela primeira vez em quatro décadas, o sistema político de Portugal, tradicionalmente ancorado em uma alternância previsível e quase monótona, fragmentou-se como um espelho atingido por uma pedra atirada do passado.
Cinco candidatos caminham lado a lado, um empate técnico que não apenas sugere um segundo turno inevitável, mas expõe as entranhas de uma democracia que começa a cansar de si mesma.
O fenômeno não é isolado e nem fruto do acaso; é a metástase de um sentimento que já vimos florescer em solo brasileiro sob a égide de Jair Bolsonaro, o golpista. Lá, como cá, a retórica do ódio e o nacionalismo de botequim encontraram terreno fértil nas frustrações de uma classe média que se sente órfã de império.
André Ventura, o rosto do Chega, personifica essa mutação estética do fascismo moderno, trocando a farda pelo terno ajustado, mas mantendo o mesmo léxico de exclusão que define o imperialismo contemporâneo.
António José Seguro, o socialista que tenta segurar as rédeas de um sistema em erosão, representa a tentativa de manutenção de um humanismo que parece, para muitos, burocrático demais diante do barulho das redes sociais.
Seguro é um político de carreira, cuja trajetória é marcada pela prudência que beira a imobilidade, enquanto Ventura é o ruído puro, a cacofonia que atrai os desesperançados.
O que está em jogo nas urnas lusas não é apenas a escolha de um mestre de cerimônias com o poder de dissolver o Parlamento, mas o próprio caráter da hospitalidade portuguesa.
A imigração tornou-se o grande moinho de vento desta jornada quixotesca, utilizada como espantalho por aqueles que preferem culpar o estrangeiro a enfrentar a ganância do capital financeiro internacional.
É curioso observar como países que construíram sua riqueza explorando territórios além-mar agora se horrorizam com a chegada daqueles que buscam apenas o que lhes foi subtraído por séculos de colonização.
O debate eleitoral foi sequestrado por uma pauta de medo, onde a dignidade humana é negociada em troca de votos de uma direita tradicional que, para não morrer, aceitou o abraço de urso da ultradireita.
Até onde a memória curta dos eleitores pode levar uma nação ao abismo?
A história de Portugal é um palimpsesto de glórias navegantes e sombras inquisitoriais, e o momento atual parece ser uma tentativa de apagar as lições de 1974.
A ascensão de figuras como André Ventura, um ex-comentarista de futebol que percebeu que a política poderia ser o seu novo gramado de ofensas, é o sintoma de uma anemia intelectual que assola o Ocidente.
Enquanto o golpista Jair Bolsonaro tentava no Brasil subverter as urnas com a força bruta da desinformação, em Portugal a tática é o estrangulamento institucional por dentro, utilizando-se das liberdades democráticas para aniquilá-las.
A direita tradicional, representada por nomes que outrora prezavam pela liturgia do cargo, agora patina em uma tentativa patética de mimetizar o discurso radical para não perder o eleitorado.
É uma dança das cadeiras onde a música é um fado triste sobre a perda de soberania para os algoritmos de ódio.
O cenário de 1986, o último grande embate em dois turnos entre Mário Soares e Freitas do Amaral, era um conflito de projetos; o cenário de 2026 é um conflito entre a civilização e o ressentimento puro.
- Dignidade humana tratada como mercadoria eleitoral de baixo custo.
- Retórica xenófoba em um país construído pela diáspora e pelo mar.
- Instituições democráticas sendo testadas por quem jurou destruí-las.
- A complacência da mídia tradicional com o absurdo travestido de opinião.
Portugal sempre foi o laboratório das tendências políticas que depois atravessam o Atlântico, e ver o país nesta encruzilhada é preocupante para qualquer humanista que preze pela justiça social.
O papel do presidente, embora constitucionalmente limitado, ganha contornos de salvaguarda ou de carrasco, dependendo de quem sentar na cadeira do Palácio de Belém.
Se o vencedor for alguém alinhado ao projeto de pilhagem financeira e exclusão social, o Parlamento será a próxima vítima de uma dissolução motivada por caprichos ideológicos.
| Personagem | Perfil Político | Postura em Direitos Humanos | Relação com a Democracia |
| António José Seguro | Socialista Moderado | Defesa institucional clássica | Preservação do sistema atual |
| André Ventura | Ultranacionalista | Retórica de exclusão e ódio | Instrumentalização para o poder |
| Direita Tradicional | Conservadorismo Liberal | Vacilante conforme a conveniência | Respeito meramente formal |
| Jair Bolsonaro | O Golpista | Desprezo absoluto e violento | Tentativa de ruptura total |
O quadro acima revela que a polarização não é um encontro de opostos equivalentes, mas sim o embate entre a sanidade possível e o delírio autoritário que se espalha como uma praga.
A política portuguesa, que por décadas foi o porto seguro da Europa do Sul, agora enfrenta ondas que podem naufragar o ideal de uma sociedade fraterna e pluralista.
Não se enganem: o que acontece em Lisboa reverbera em Brasília, Paris e Madrid; é a luta global contra o fascismo que se recusa a morrer e o imperialismo que se recusa a pedir desculpas.
Será que a erudição do povo português será suficiente para discernir entre o gogó dos demagogos e a realidade dos fatos?
A resposta virá das urnas, mas o estrago causado pela legitimação do discurso de ódio já é uma cicatriz profunda na face da República.
Portugal precisa decidir se quer ser a vanguarda de uma nova resistência ou se será apenas mais um capítulo na história da decadência democrática europeia sob o jugo do capital e do medo.





